« We’re always lucky »

Hadley e Hemingway
Passei pela Shakespeare and Company no final de uma tarde dessas para matar tempo entre uma aula e outra. A lendária livraria não estava muito cheia, o que me deixou mais à vontade para mergulhar na prateleira da Lost Generation e dar uma olhada em algumas reedições daquela turma de escritores americanos que frequentou a Shakespeare and Company na década de 20 (embora, na época, a loja ficasse em outro lugar).
Como em Paris todos os clichês se confirmam, acabei saindo de lá com uma edição baratinha de A Moveable Feast, de Hemingway, um dos caras da « geração perdida ». A versão original de Paris é Uma Festa (como foi chamado no Brasil) ressalta o estilo simples de Hemingway e torna alguns momentos do livro ainda mais fortes, ao contar as memórias do tempo em que ele viveu na cidade, entre 1921 e 1926. E justamente o capítulo em que ele fala da livraria Shakespeare and Company traz uma bela amostra disso.
É o início do livro, aborda as primeiras impressões do então jovem escritor sobre Paris e sobre o início da vida de casado com Hadley Richardson. Completamente sem grana, mas intensamente apaixonado, o casal parece viver apenas do entusiasmo de estar na Paris dos anos 20. Viviam de amor — sem o perdão do clichê (estamos falando da cidade do clichê, eu já disse). Cada pequena novidade era celebrada pelos dois, recém chegados à Europa (uma versão bem sucedida do filme Revolutionary Road hehe). E a manhã em que Hemingway descobriu a Shakespeare and Company, um lugar em que ele poderia conseguir livros e pagar depois, foi uma dessas descobertas. Chegou em casa na hora do almoço, entusiasmado para contar a Hadley. E segue-se então o belo diálogo em que os dois planejam o resto do dia — e o resto de suas vidas — na cidade:
When I got there with the books, I told my wife about the wonderful place I had found.
« But Tatie, you must go by this afternoon and pay, » she said.
« Sure I will, » I said. « We’ll both go. And then we’ll walk down by the river and along the quais. »
« Let’s walk down the Rue de Seine and look in all the galleries and in the windows of the shops. »
« Sure. We can walk anywhere and we can stop at some new cafe where we don’t know anyone and nobody knows us and have a drink. »
« We can have two drinks. »
« Then we can eat somewhere. »
« No. Don’t forget we have to pay the library. »
« We’ll come home and eat here and we’ll have a lovely meal and drink beaune from the co-operative you can see right out of the window there with the price of the beaune on the window. And afterwards we’ll read and then go to bed and make love. »
« And we’ll never love anyone else but each other. »
« No. Never. »
« What a lovely afternoon and evening. Now we’d better have lunch. »
« I’m very hungry, » I said. « I worked at the café on a café crème. »
« How did it go, Tatie? »
« I think all right. I hope so. What do we have for lunch? »
« Little radishes, and good foie de veau with mashed potatoes and an endive salad. Apple tart. »
« And we’re going to have all the books in the world to read and when we go on trips we can take them. »
« Would that be honest? »
« Sure. »
« Does she have Henry James too? »
« Sure. »
« My, » she said. « We’re lucky that you found the place. »
« We’re always lucky, » I said and like a fool I did not knock on wood. There was wood everywhere in that apartment to knock on too.

novembre 19th, 2009 at 12:31
tem aquela passagem dele com o joyce no deux magots, falando sobre o pound. grande livro, um livro que dá fome! a moveable feeeeeast!
novembre 21st, 2009 at 7:13
Lovely.
novembre 30th, 2009 at 1:25
A Shakespeare & Co abriga escritores sem grana como forma de promover a arte da literatura, né. Com uma boa conversa, tu consegue cama por lá.
Eu conheci um guri que ficou umas boas semanas. Sem escrever uma linha. Não era exatamente um escritor, mas só alguém que precisa passar essa lábia antes de conseguir um emprego na Disney. Not glam.
E estou com saudade.
décembre 1st, 2009 at 7:12
knock knock knock
décembre 2nd, 2009 at 5:11
Knock, Knock, Knock, Knock Knock, Knock…. bato na madeira todas as noites pensando em como eu devia ter batido naqueles dias em que eu jurava que era « so lucky ».
décembre 5th, 2009 at 2:41
you’re so superstitious. love is just a coincidence.
décembre 17th, 2009 at 6:40
olha, achei o livro meio chato, mas acho que posso dizer que gostei, já que sublinhei o livro todo. tem passagens lindas, tipo essa daí. e as histórias do fitzgerald, que são engraçadas.
ah, é: não escapei do clichê. a edição que eu li foi uma baratinha, comprada na shakespeare & co. nesse mesmo espírito