Carta a um jovem jornalista

Ai, que preguiça desse assunto. Ele é tão 2004… Não ia me pronunciar sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista – até porque cansei de participar desses debates na época da faculdade -, mas mudei de ideia ao ver muita gente boa repetindo o discurso ridículo da obrigatoriedade. E daí me preocupei. Enquanto era só a meia dúzia de professores-sindicalistas-petistas que repetiam o discurso do partido para os alunos na sala de aula (incluindo aí o Conselho Nacional de Jornalismo), bem, eu não me importava. O problema é que, aparentemente, a doutrinação está começando a fazer efeito sobre alunos e – pior – sobre outros professores que, para mim, eram referência em pensamento livre. Ou seja, o que era impensável está acontecendo: alunos de jornalismo estão saindo ainda mais idiotas da faculdade, porque agora eles estão acreditando nos professores. A situação é preocupante.
Então, jovem jornalista, antes de sair com o discurso do seu professor sindicalista embaixo do braço direto para o primeiro boteco aporrinhar a paciência dos seus amigos, ou antes de copiar e colar tudo no seu blog, reflita comigo e deixe de ser um cordeiro.
1. A decisão do Supremo Tribunal Federal não vai mudar em nada a forma como funciona hoje o mercado de trabalho para jornalistas. Todos os jornais seguem exigindo a graduação – em alguns casos, como a Folha de S.Paulo, exige-se pós-graduação em andamento – para quem pretende começar uma vida profissional na função mais elementar de um jornal, a de repórter. Por que? Porque para esse tipo de função é necessário, sim, algum conhecimento técnico básico (apuração de informação, checagem, etc).
2. A decisão do Supremo simplesmente assegura que qualquer cidadão brasileiro possa escrever em um jornal, possa criar o seu próprio jornal, possa, enfim se expressar de forma escrita como quiser (sempre, obviamente, sujeito a punição por calúnia, injúria ou difamação). Puxa, isso não é incrível? Isso me soa parecido com uma coisa estranha chamada… democracia! Pois é. Exigir o diploma para que alguém possa escrever em um jornal é contrariar uma cláusula pétrea da constituição, que é a da liberdade de expressão. Ou seja, vários bons nomes que lemos hoje na imprensa e que não trabalham na função específica de apuração da informação (como articulistas, analistas, colunistas) – e que frequentemente tem uma formação melhor que a do jornalista – seriam banidos dos jornais. Isso melhoraria a qualidade da nossa imprensa? Outra pergunta: não seria lógico, então, começarmos a exigir diploma para escrever em blog? O blog não é, como pregam hoje, a verdadeira imprensa independente? E é independente por que? Porque qualquer um pode escrever o seu. E se começarem a exigir diploma? Última pergunta: condicionar a liberdade de expressão de um cidadão ao dinheiro que ele tem para pagar por um diploma não é um absurdo?
A questão, para mim, é tão óbvia, que poderíamos encerrar por aqui. Por esse motivo específico, do ponto número 2, a discussão já poderia se dar por encerrada. Mas na esteira dela vêm muitas outras questões que, se você levar para a sala de aula, eu aposto com você, vão deixar aquele seu professor de cabelo branco puto da vida. Vamos a algumas delas:
3. As melhores coisas que você vai ver em bons jornais (estou aqui falando de bons jornais) não são os textos dos repórteres ou o brilhante trabalho de seleção do editor. Tampouco a arte do diagramador. Nos bons e grandes jornais, o diferencial em relação aos outros quase nunca é a reportagem, mas os bons articulistas, bons analistas, é gente que feche os pontos, ligue uma coisa à outra, raciocine, baseado, muitas vezes, nas informações apuradas pelos jornalistas. Ou seja, para se apurar uma informação, segue sendo necessária a técnica das escolas de jornalismo. Mas, frequentemente, a tarefa de saber fazer algo com essa informação não é o forte dos jornalistas.
4. A formação acadêmica é importante? Mais do que importante: é fundamental na formação de alguém que se pretende minimamente intelectualizado. É imprescindível. A faculdade de jornalismo é importante? Bom, daí o furo é mais embaixo. Li professores por aí defendendo que o « ambiente acadêmico » é importantíssimo na formação de alguém. É claro que é. Mas o « ambiente » é só um dos elementos que formam uma graduação – além dele temos o conteúdo programático, a avaliação rigorosa, etc. Mas acontece que o « ambiente acadêmico » é o único destes elementos que encontramos na graduação de jornalismo. Trata-se claramente de um curso incompleto e em busca de um sentido, mesmo depois de 50 anos de existência. Pergunte a qualquer pessoa formada em jornalismo e ela lhe dirá: « o que valeu na minha graduação foi o bar da Famecos, as pessoas que conheci, as dicas esporádicas de leitura que o professor tal me deu – fiquei até amigo dele, íamos comer X depois da aula ». São elementos importantíssimos, mas não são tudo. E é só o que a graduação em jornalismo oferece. Ou seja, é possível encontrar o « ambiente acadêmico », mas com vantagens, em outros cursos.
5. Ainda sobre o curso de jornalismo: são quatro anos sem nenhuma lógica, um verdadeiro saco de gatos que pretende ensinar teoria da comunicação, fotografia, história do Brasil, fazer boletins de rádio e servir cafezinho – e no fim não ensina nenhuma dessas coisas direito. Quer dizer, não é um problema dos alunos ou dos professores. Me parece que conceitualmente uma « faculdade de jornalismo » não faz nenhum sentido. O ideal seria que pessoas com qualquer formação superior fizessem, depois, um curso de, vá lá, dois anos, para se capacitar ao jornalismo. E mais: se capacitar a um tipo específico de jornalismo: OU fotografia, OU rádio, OU TV, OU jornal. Deveria simplesmente adquirir a técnica básica para comunicar o seu conhecimento.
6. Por fim, perceba, caro aluno de jornalismo ou jovem colega, o papel ridículo que você está fazendo ao comprar o discurso desses professores e sindicalistas. Não existe maior atestado de incompetência do que o corporativismo. Proteger classe, reservar mercado, segurar bandeira para sustentar um diploma só porque « eu paguei por ele e os outros não », fazer chororô porque « minha profissão foi comparada a de um cozinheiro » – isso não é coisa de jornalista. É coisa de sindicalista chorão. Arregace suas mangas, faça « jornalismo pau dentro », como diz o grande professor Marques Leonam, e seja bom nisso. É o que basta para você jamais ter que se preocupar com a obrigatoriedade do diploma. Deixe isso para esse pessoal que passa a vida criticando o jornalismo, ao invés de fazer jornalismo.

Dr. Thompson: « To muito precupado com o diploma de jornalismo »

Que preguiça desse assunto. Ele é tão 2004… Não ia me pronunciar sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista – até porque cansei de participar desses debates na época da faculdade -, mas mudei de ideia ao ver muita gente boa repetindo o discurso ridículo da obrigatoriedade. E daí me preocupei. Enquanto era só a meia dúzia de professores-sindicalistas-petistas que repetiam o discurso do partido para os alunos na sala de aula (incluindo aí o Conselho Nacional de Jornalismo), bem, eu não me importava. O problema é que, aparentemente, a doutrinação está começando a fazer efeito sobre alunos e – pior – sobre outros professores que, para mim, eram referência em pensamento livre. Ou seja, o que era impensável está acontecendo: alunos de jornalismo estão saindo ainda mais idiotas da faculdade, porque agora eles estão acreditando nos professores. A situação é preocupante.

Então, jovem jornalista, antes de sair com o discurso do seu professor sindicalista embaixo do braço direto para o primeiro boteco aporrinhar a paciência dos seus amigos, ou antes de copiar e colar tudo no seu blog, reflita comigo e deixe de ser um cordeiro.

1. A decisão do Supremo Tribunal Federal não vai mudar em nada a forma como funciona hoje o mercado de trabalho para jornalistas. Todos os jornais seguem exigindo a graduação – em alguns casos, como a Folha de S.Paulo, exige-se pós-graduação em andamento – para quem pretende começar uma vida profissional na função mais elementar de um jornal, a de repórter. Por que? Porque para esse tipo de função é necessário, sim, algum conhecimento técnico básico (apuração de informação, checagem, etc).

2. A decisão do Supremo simplesmente assegura que qualquer cidadão brasileiro possa escrever em um jornal, possa criar o seu próprio jornal, possa, enfim, se expressar em veículos de comunicação da forma como quiser (sempre, obviamente, sujeito a punição por calúnia, injúria ou difamação). Puxa, isso não é incrível? Isso me soa parecido com uma coisa estranha chamada… democracia! Pois é. Exigir o diploma para que alguém possa escrever em um jornal é contrariar uma cláusula pétrea da constituição, que é a da liberdade de expressão. Ou seja, vários bons nomes que lemos hoje na imprensa e que não trabalham na função específica de apuração da informação (como articulistas, analistas, colunistas) – e que frequentemente tem uma formação melhor que a do jornalista – seriam banidos dos jornais. Isso melhoraria a qualidade da nossa imprensa?

3. Mais perguntas: não seria lógico, então, começarmos a exigir diploma para escrever em blog? O blog não é, como pregam hoje, a verdadeira imprensa independente? E é independente por que? Porque qualquer um pode escrever o seu. E se começarem a exigir diploma? Última pergunta: condicionar a liberdade de expressão de um cidadão ao dinheiro que ele tem para pagar por um diploma não é um absurdo?

A questão, para mim, é tão óbvia, que poderíamos encerrar por aqui. Por esse motivo específico, do ponto número 2, a discussão já poderia se dar por encerrada. Mas na esteira dela vêm muitas outras questões que, se você levar para a sala de aula, eu aposto com você, vão deixar aquele seu professor de cabelo branco puto da vida. Vamos a algumas delas:

4. Algumas das melhores coisas que você vai ver em bons jornais (estou aqui falando de bons jornais) não são os textos dos repórteres ou o brilhante trabalho de seleção do editor. Tampouco a arte do diagramador. Nos bons e grandes jornais, o diferencial em relação aos outros quase nunca é a reportagem, mas os bons articulistas, bons analistas, é gente que feche os pontos, ligue uma coisa à outra, raciocine, baseado, muitas vezes, nas informações apuradas pelos jornalistas. Ou seja, para se apurar uma informação, segue sendo necessária a técnica das escolas de jornalismo. Mas, frequentemente, a tarefa de saber fazer algo com essa informação não é o forte dos jornalistas.

5. A formação acadêmica é importante? Mais do que importante: é fundamental na formação de alguém que se pretende minimamente intelectualizado. É imprescindível. A faculdade de jornalismo é importante? Bom, daí o furo é mais embaixo. Li professores por aí defendendo que o « ambiente acadêmico » é importantíssimo na formação de alguém. É claro que é. Mas o « ambiente » é só um dos elementos que formam uma graduação – além dele temos o conteúdo programático, a avaliação rigorosa, etc. Mas acontece que o « ambiente acadêmico » é o único destes elementos que encontramos na graduação de jornalismo. Trata-se claramente de um curso incompleto e em busca de um sentido, mesmo depois de 50 anos de existência. Pergunte a qualquer pessoa formada em jornalismo e ela lhe dirá: « o que valeu na minha graduação foi o bar da Famecos, as pessoas que conheci, as dicas esporádicas de leitura sobre a pós-modernidade que o professor tal me deu – fiquei até amigo dele, íamos comer X depois da aula ». São elementos importantíssimos, mas não são tudo. E é só o que a graduação em jornalismo oferece. Ou seja, é possível encontrar o « ambiente acadêmico », mas com vantagens, em outros cursos.

5. Ainda sobre o curso de jornalismo: são quatro anos sem nenhuma lógica, um verdadeiro saco de gatos que pretende ensinar teoria da comunicação, fotografia, história do Brasil, a fazer boletins de rádio e a servir cafezinho – e no fim não ensina nenhuma dessas coisas direito. Quer dizer, não é um problema dos alunos ou dos professores. Me parece que conceitualmente uma « faculdade de jornalismo » não faz nenhum sentido. O ideal seria que pessoas com qualquer formação superior fizessem, depois, um curso de, vá lá, dois anos, para se capacitar ao jornalismo. E mais: se capacitar a um tipo específico de jornalismo: OU fotografia, OU rádio, OU TV, OU jornal. Deveria simplesmente adquirir a técnica básica para comunicar o seu conhecimento.

6. Fechando o capítulo faculdade de jornalismo: tudo bem que exista esse curso esquizofrênico, sem sentido e sem foco. Ele ainda é a maneira mais fácil para se fazer uma carreira de jornalista (como eu disse, os jornais só vão te contratar com o diploma). Mas não venham tentar me convencer de que ele é o único que oferece formação suficiente para alguém ser jornalista.

7. Por fim, perceba, caro aluno de jornalismo ou jovem colega, o papel ridículo que você está fazendo ao comprar o discurso desses professores e sindicalistas. Não existe maior atestado de incompetência do que o corporativismo. Proteger classe, reservar mercado, segurar bandeira para sustentar um diploma só porque « eu paguei por ele e os outros não », fazer chororô porque « minha profissão foi comparada a de um cozinheiro » – isso não é coisa de jornalista. É coisa de sindicalista chorão. Arregace suas mangas, faça « jornalismo pau dentro », como diz o grande professor Marques Leonam, e seja bom. É o que basta para você jamais ter que se preocupar com a obrigatoriedade do diploma. Deixe isso para o pessoal que se dedica a criticar o jornalismo, não a fazer jornalismo.

PS.: Dica 8: esqueça tudo o que eu escrevi e leia Leandro Demori que, para variar, resumiu bem melhor a besteira toda.

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