A diferença do silêncio
Minha noite de Natal chuvosa e fria — um tanto melancólica — em Paris foi salva por uma fábula infantil. Nunca imaginei que, depois de tanto tempo, a história da Branca de Neve pudesse ainda emocionar. Provavelmente a branquela e seus sete anões bobos não me diriam nada em sua fórmula original. Mas estou falando da versão do coreógrafo francês Angelin Preljočaj, que inclusive passou pelo Brasil há pouco. O espetáculo de dança Blanche-Neige tem um ano de estrada colecionando elogios. Aproveitei a sua reestreia no incrível Theâtre National de Chaillot, ao pé da Torre Eiffel, para conferir se era isso tudo. E é.
Preljočaj, um francês de origem albanesa, conta com dois apoios de primeira para recontar a fábula infantil: Blanche Neige tem música do grande Gustav Mahler e figurinos de Jean Paul Gaultier. Mas o que encanta é certamente o equilíbrio encontrado pelo coreógrafo ao tentar uma versão moderna de uma história tão tradicional. Preljočaj é ousado no limite — apenas quando pode. É o caso dos anões, um grupo de sete homens que em nada lembram anões e que deslizam com graça por uma parede contando com o suporte de equipamentos de alpinismo.
Quando não precisa, no entanto, a concepção é tradicional, talvez até demais — caso do momento do beijo em que o príncipe « ressuscita » Branca de Neve. Os movimentos são belos, um tanto conservadores, mas exatamente o que pede este momento da fábula. Preljočaj não propõe rompimento, mas ousa quando pode — o suficiente para escapar da pieguiçe original da história. E emociona, o que mais importa.
O momento que mais me agradou foi justamente um destes de equilíbrio. Entre o tradicional e o inovador, trata-se de uma passagem que provoca reflexão, além do encantamento natural. Estão no palco somente o príncipe e a Branca de Neve — encarnada pela magnífica Nagisa Shirai — em uma coreografia que ainda celebra a felicidade do casal, antes que as desventuras provocadas pela bruxa comecem a se suceder. Pois os dois começam a bailar e a até então perfeita trilha sonora de Gustav Mahler simplesmente não entra junto. Nagisa e Sergio Diaz dançam em silêncio todo o tempo, indiferentes ao estranhamento que parecem despertar no público. Lá pelas tantas, voltam à posição inicial — e creio que isso nem todos os espectadores perceberam, pelo que sondei após o espetáculo — e recomeçam a mesmíssima coreografia, mas agora novamente embalados pela música de Mahler.
A « falha », claramente intencional, convida o espectador mais atento a uma reflexão sobre o valor do silêncio e a simbiose entre melodia e movimento. A essência da forma como estes dois elementos se completam, para mim, ficou clara em uma flagrante sensação despertada pela passagem: a de que a mesma coreografia, sem a música, leva muito mais tempo do que a mesmíssima, quando embalada. Não há muitas outras questões que se coloquem ao longo da 1h50min de apresentação — fato suplantado, todavia, pela beleza do espetáculo. As duas danças do casal, separados do restante do grupo, são provavelmente a coisa mais bela que assisti em um palco. Infelizmente, apenas uma delas está disponível na internet — e num trechinho curto, a partir dos 35 segundos deste vídeo aí de baixo. Confere:

janvier 3rd, 2010 at 11:10
Olá, Gabriel, tudo bem contigo?
Fui teu colega em ZH. Mais um dos tantos auxiliares que passaram por aquela « gloriosa » Redação! Perdi contato com boa parte das pessoas de quem eu gostava lá. Apesar do pouco contato contigo, resumido a alguns almoços na « graxa », mando um forte abraço! Sempre li os teus textos em ZH, dos quais gostava bastante!
Agora, estava na internet fazendo uma « busca » por notícias tuas! Em breve, estarei retornando ao Facebook e aderindo ao Twitter e espero não mais perder o contato contigo. Parabéns pelos grandes textos e um forte abraço do ex-colega!
Antonio Munró Filho
janvier 5th, 2010 at 5:39
Oi Antonio! Te mandei um email. Abração.