Archive for janvier, 2010

Ai, cinema, que preguiça

Mardi, janvier 26th, 2010

Como faz há algum tempo, a rede de cinemas UGC realizou, neste mês, o festival Les Incontournables, reprisando os principais filmes do ano em sessões a módicos 3 euros. Como passei este ano correndo sem parar para resolver uma nova vida inteira e, portanto, pouco fui ao cinema, aproveitei o festival para tirar algum atraso. Meia dúzia de sessões depois, o saldo é aquela reflexão incômoda: ou 2009 foi um péssimo ano para o cinema, ou os meus problemas com a sétima arte estão ficando, de fato, cada vez mais incontornáveis.

Os filmes que alimentavam alguma expectativa, como Frost/Nixon, l’heure de vérité, se revelaram apenas ok. Os que naturalmente prometiam ser ruins, como Inglorious Bastards, cumpriram a expectativa de forma exemplar: são bobagens sem tamanho, daquelas que dão vontade de enterrar o balde de pipoca na cabeça por saber que se está perdendo não só 3 euros, mas quase duas horas da sua vida.

500 Jours Ensemble, a comédia romântica da moda, é outra grande perda de tempo. E, cá entre nós, não tem coisa mais cretina que essa onda de « filmes indie » (da qual Juno e Garden State já são clássicos). É o retrato da porcaria em que foi dar essa geração que cresceu choramingando fechada no quarto ouvindo Radiohead e Belle and Sebastian — sim, a minha geração. Infantis, ignorantes, fracos, depressivos e vegetarianos. Foi o que nos tornamos.

Em meio a todo o tédio do filme, no entanto, meu amigo Alessandro Minuscoli, jornalista e sociólogo, conseguiu fazer uma boa análise de alguns aspectos interessantes que, forçando a barra, dá para extrair do filme. Em algumas poucas linhas e tomando não mais do que uns 3 minutos do leitor, Alessandro consegue dizer mais do que a hora e meia de piadas sem graça do filme. Acho que essa constatação é uma boa pista para você, que está aí pensando « como esse cara não gosta do cinema recente? », começar a me entender.

Aí vai um trecho do bom texto « O calvário dos ‘homens femininos’« :

« Summer casou. A mesma que não acreditava no amor e queria relações casuais. Com o homem do anel. Tom não compreende. Nessa seqüência, está evidente o brete no qual se encontram os homens. Não é o homem sentimental, nem o amoroso, afetivo (aquele pelo qual as mulheres bradaram durante tempos), mas sim aquele que dá um presente que representa a segurança, o poder, a força. É a evidência, no mínimo, de mudanças: 1 – as mulheres também podem fazer suas escolhas; 2 – essa liberdade, saudável, não liberta de valores tradicionais (o presente caro significa a entrega a um padrão de homem). A mudança é de configuração, menos que revolucionária. »

Chanti-y

Lundi, janvier 25th, 2010

Voilá!

Dando início a uma série de viagens curtas e baratas pelos arredores de Paris, no último domingo fui até a simpática cidade de Chantilly (clique na foto acima para ir ao Flickr ver as outras), ao norte da capital, distante cerca de 30 minutos de trem. Dá para ir de RER D, o trem metropolitano, e você só paga a passagem, que custa 8,50, se estiver muito afim. (Como é comum nas estações de cidades do interior, a gare de Chantilly não tem roleta nem nenhum tipo de controle. É um sambarilove total).

Chantilly é pequena, mas cheia de história — a começar pelo célebre creme que o também célebre cozinheiro François Vatel (retratado no longa-metragem Vatel, de 2000) criou por lá. E não dá para esquecer que a pronúncia, em francês, vai sem o L. Vira Chanti-y — o que aprendi depois de ser corrigido pelos locais. Os dois grandes atrativos da cidade são o Museu do Cavalo (que vale pela bela construção que fica ao lado do hipódromo, mesmo que você não se interesse por cavalos como eu) e, obviamente, o famoso castelo de Chantilly — no Brasil mais conhecido como o « castelo da Cicarelli e do Ronaldo ».

E o château é, de fato, o grande destaque. Não sou de me empolgar muito com castelos e palácios — prefiro fazer o « turismo que senta num café », que aprecia as nunces do cotidiano, não os monumentos, como já contei por aqui. Mas tive que dar o braço a torcer quando vi o Château de Chantilly: ele é belo, como muitos são, mas é belo não pela magnitude, pela ostentação, pela riqueza. Mas por um conjunto de coisas simples que fazem dele uma espécie de castelo em que qualquer um sente que poderia morar. Difícil um castelo parecer intimista, não é? Entre os elementos que compõem essa atmosfera está sem dúvida o bucolismo. O castelo é cercado por um lago cheio de patos — que sofrem nas águas congeladas desta época — e, na maior parte do tempo, o barulho dos patos é tudo o que se ouve por lá. Os turistas, em menor quantidade que no castelo de Versailles, por exemplo, não são ruidosos. No máximo, ouvem-se seus passos lentos arrastados sobre o chão de pedrinhas. Tudo colabora para uma sensação de paz. Ou seja, um bom programa para um domingo em que se quer escapar da cidade e desligar o cérebro.

Outro detalhe inusitado e que torna o castelo simpático é a obsessão de seus antigos e vários proprietários por cachorros. Tem estátuas e pinturas retratando cachorro por todos os lados, dentro e fora do castelo. Aparentemente porque essa é uma região de caça, tarefa para a qual os cães sempre foram bastante uteis ao homem.

O centro da cidade, bem próximo ao castelo (15 minutos de caminhada entre os dois), revela uma típica cidade do norte da França, com construções e jardins que lembram a Inglaterra. Como o dia estava chuvoso e frio, quase não havia pessoas pelas ruas. O que me leva a crer que essa sensação de paz verificada em Chantilly deve ser privilégio do inverno. Mas o inverno, como sempre, mais atrapalha do que ajuda. Ajuda a criar um clima romântico, com a cerração envolvendo o château, mas arruina qualquer tentativa de piquenique, como o que a gente pretendia fazer no gramado.

Ah, dentro do castelo também fica o Museu Condé, com um incrível acervo de obras de arte. Os aposentos do castelo só podem ser vistos nas visitas guiadas (somente em francês), que rolam três vezes ao dia. A entrada para o castelo e para o museu fica em 10 euros para estudante. Também é possível almoçar no restaurante do castelo, que leva o nome do grande Vatel, mas daí a conta é mais salgada.

O nomadismo, a vagabundagem e a errância vão nos libertar

Jeudi, janvier 21st, 2010

Recebi ontem um cartão postal do casal 2backpacks. Vem direto da Rússia do Nepal e traz um hilário desabafo ao pé do ouvido feito pelo Felipe sobre o viajar enquanto ato provedor de tolerância em relação a outras culturas. Um tratado em poucas frases bem-humoradas, como é típico dele. Pois ao casal 2backpacks e a todos nós que buscamos um sentido na errância como filosofia de vida, segue aí um trecho de um livro que me acertou no fígado, hoje à tarde, enquanto errava por alguns cafés do Boulevard Saint-Michel:

« A imobilização em uma função — quer se trate de uma função profissional, afetiva, ideológica –, longe de ser a marca de uma superioridade, de um progresso social ou individual, pode ser o sintoma de um fechamento, e, portanto, em um certo prazo, ter um efeito mortífero. A regulamentação da « circulação », a boa gestão das disfunções ou dos acidentes que ela não deixa de induzir permanecem, de antiga memória, a preocupação essencial do poder. Com a modernidade, da qual o Big Brother de Orwell é uma boa ilustração, a uniformização e o controle atingem seu ponto culminante. O que se move escapa, por definição, à câmera sofisticada do pan-óptico. Desde então o ideal do poder é a imobilidade absoluta, da qual a morte é, com toda a segurança, o exemplo acabado. »

PS.: Se você não tem acompanhado a aventura do casal 2backpacks pelo mundo, comece URGENTE. Os textos estão cada vez melhores, como este.

Charlotte, Charlotte…

Samedi, janvier 16th, 2010

O disco mais recente chama IRM, tem uma bela canção com este belo video ao lado de Beck, e ela também está em cartaz nos cinemas com Persécution, de Patrice Chéreau. Mas nada disso consegue superar o clipe abaixo, da canção 5:55, do disco de mesmo nome, lançado em 2006.