Archive for octobre, 2009

A vida cotidiana não é tributária da simples razão

Mercredi, octobre 28th, 2009

Vão aí quatro trechos de No Ritmo da Vida — Variações sobre o Imaginário Pós-moderno, de Michel Maffesoli, que dão o que pensar sobre a curva que o homem atual está fazendo em direção ao primitivo. O livro não deixa de ser um resumão de coisas que o próprio autor já disse em outros livros, mas até por isso vale ser lido. E não se engane: trata-se de um olhar bastante otimista sobre esta tal curva rumo ao arcaico. Ah, os subtítulos são meus, não do prófe:





1. A volta dos rituais: jornalismo e música techno

“Essa significância que não se projeta e vive no dia-a-dia dos mitos arcaicos não deixa de lembrar intuições como a de Gabriel Tarde sobre a ‘repetição universal’, e naturalmente a iluminação nietzscheana sobre o ‘eterno retorno’. Estas encarnam, concretamente, nas figuras da publicidade ou no andamento lancinante da música techno. Outros exemplos esclarecedores são as conversas cotidianas e a importância da repetitividade no noticiário jornalístico. Em cada um desses casos, estamos longe da ‘via recta’ da demonstração, e em plena ruminação primitiva de alguns enigmas próprios à natureza humana. Como no caso das diversas ‘lições’ de uma mesma história identificadas pelos historiadores das religiões em todos os mitos, existe redundância em todos os fenômenos sociais consitutivos da vida cotidiana. Donde – e isto tem sérias consequências para nossa compreensão desses mesmos fenômenos – a impossibilidade de analisá-los buscando causas ou de apreciá-los em função de uma finalidade puramente racional. A vida cotidiana não é tributária da simples razão.”

2. A volta da contemplação e da vida sem objetivos: adultos jogam video-game

“Seja nas idas a boates, nos ajuntamentos religiosos, nas diversas peregrinações exóticas ou na multiplicação das práticas esportivas, o que está em jogo é a exaltação da vida no que tem de sensível e afetuoso. O ascetismo, a contenção, a limitação, próprios da educação judaico-cristã, não tem mais curso. Prevalece apenas a consumação do instante. O imaginário que assim se esboça é essencialmente estético, o imaginário das vibrações comuns. Já não se trata de ser um adulto sério e tensionado para a perfeição de um estado estável, mas, pelo contrário, uma eterna criança, sempre em devir a ávida pelo que se apresenta. Esse ‘juventudismo’ pode ser criticável de um ponto de vista moderno. Mas nem por isso deixa de contaminar os modos de vida, precários, efêmeros, as maneiras de se vestir, os cuidados com o corpo e as diversas posturas intelectuais. O que se traduz na recusa exacerbada de qualquer projeto (político ou existencial).”

3. A volta do tribalismo: piercings e tatuagens

“Chama a atenção, com efeito, para além das ideias convencionadas sobre o suposto desânimo geral, uma inegável serenidade no ‘corporalismo’ contemporâneo, jogos do corpo, jogos sobre o corpo. Tatuagens, piercing, ‘body-building’, barroquização da vestimenta e cosmetização exaltam um corpo cuja finitude é conhecida, mas isto feito numa perspectiva ‘mística’. São rituais de união, sacramentos que tornam visível uma força invisível. A repetição dos signos, cor dos cabelos, escarificações, uniformes vestimentais, leitmotive de linguagem, exprimindo uma saúde selvagem, natural, que, além ou aquém das ideologias, traduz um hedonismo tribal, no qual a solidariedade, a ajuda mútua e a generosidade têm lugar.”

4. A volta dos deuses mitológicos: nossos heróis são rockstars

“(…) É isso que pode permitir compreender que os heróis pós-modernos não são mais políticos ou ideológicos, mas à imagem dos deuses pré-modernos, das “figuras” que vivem as paixões, os amores, as baixezas e as exaltações de qualquer um. Donde a necessidade de uma hermenêutica centrada na mitologia cotidiana e capaz de reconhecer, no jogo das redundâncias rituais, visuais, acústicas e sensoriais, uma função simbólica que, como indica Gilbert Durand, “corrige e completa inesgotavelmente a inadequação” a esse sentido profundo ao qual aspiramos. Existe intensidade na superficialidade dos fenômenos.”

À Sombra de um Crime

Mardi, octobre 20th, 2009

Segue abaixo matéria publicada na edição de domingo (18/10) dos jornais Zero Hora e Diário Catarinense, seguida pela retranca extra « Uma Máquina Complexa », que acabou ficando de fora dos dois jornais por falta de espaço, mas que eu acho que vale ser lida.

O exílio de dois brasileiros

Como vive o casal que pediu refúgio político à França para fugir dos assassinos do ex-prefeito Celso Daniel

Gabriel Brust, Especial/Paris

“Você vai nos reconhecer. Somos um casal estranho. Eu sou baixinha com cara de japonesa, Bruno é alto com cara de italiano.”

O último dos vários e-mails trocados ao longo de dois meses deixa clara a preocupação de Marilena Nakano, 61 anos, com a segurança. O encontro é marcado em local público. Ao seu lado, em uma saída de estação de metrô na periferia de Paris, surge seu marido, Bruno José Daniel Filho, 56 anos – um dos irmãos de Celso Daniel, ex-prefeito da cidade paulista de Santo André, assassinado em 2002. O casal “estranho” na aparência vive há três anos na França, em endereço não revelado e em circunstâncias ainda mais exóticas: são refugiados políticos reconhecidos pelo governo francês. Deixaram o Brasil para não virar estatística. No caso, os números nove e 10 na lista de pessoas mortas em circunstâncias suspeitas, todas relacionadas de alguma forma ao caso Celso Daniel.

A descrição do e-mail foi fiel. Bruno José, quase um 1m90cm, magro, cabelo batido e queixo proeminente, destoa de Marilena, enquanto caminham de braços dados pelas ruas de uma das pequenas cidades da banlieue, a periferia parisiense. Marilena é quem mais fala durante as duas horas de conversa em um café. Deixa transparecer indignação, tristeza e, às vezes, até bom humor. Bruno fala pouco e tenta, mas não consegue, sorrir. A morte traumática do irmão seria apenas o primeiro episódio a roubar-lhe qualquer possibilidade de voltar a ter uma existência tranquila. Quem define o trauma é Marilena:

– Lidamos com duas mortes. Uma foi a do Celso. A outra foi a morte simbólica de companheiros do PT. De companheiros, não têm nada.

Foi em função da segunda morte, mais do que da primeira, que o casal desembarcou na França no dia 1º de março de 2006. No segundo semestre de 2005, Bruno, então professor de Economia da PUC-SP, percebeu que o único resultado da luta para desvendar o assassinato do irmão foi o isolamento da família. Restavam ele e Marilena, ambos ex-petistas históricos, como dois Davis batendo de frente com interesses aparentemente ocultos, que se materializavam em duas frentes. Primeiro, na Polícia Civil, que, com apenas três meses de investigação, em abril de 2002, concluiu que o assassinato não passou de crime comum – Celso teria sido sequestrado por engano, no lugar de um empresário. Em segundo, na suposta debandada de companheiros históricos do PT, ocorrida por volta de 2003. Marilena conta:

– A nossa última tentativa de obter apoio do PT foi quando tivemos acesso às fotos da necropsia. Elas mostram que Celso foi torturado. Chamamos alguns petistas, um a um, para dizer “você vai ver o que nós vimos, e a gente está pedindo pela última vez: vocês têm de fazer alguma coisa”. Nunca moveram uma palha.

A indiferença inicial de ex-companheiros se tornaria repúdio aberto à atuação do casal a partir de 6 de outubro de 2005. Bruno confirmou, em depoimento à CPI dos Bingos, ter ouvido de Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um relato sobre corrupção na prefeitura de Santo André com arrecadação de propina para o PT. A participação na CPI foi a gota d’água para acabar com qualquer relação entre o partido e a família Daniel.

O embate do casal e de outro irmão da vítima, João Francisco Daniel, hoje respira graças à intervenção do Ministério Público (MP) de São Paulo. Após avaliar que a investigação policial apresentava questões não esclarecidas, o MP solicitou, em 2002, a reabertura dos trabalhos. Desde então, os esqueletos não pararam de sair do armário. Oito pessoas foram denunciadas pelo assassinato. Outras oito relacionadas ao caso morreram em circunstâncias misteriosas.

– Começamos a sofrer ameaças de forma mais intensa depois que o legista veio a público e disse “Celso foi torturado, não foi um crime comum”. Era a fala de um especialista. Antes de concluir o relatório, foi encontrado morto – conta Bruno.

As ameaças, em telefonemas suspeitos, levaram a polícia a providenciar segurança 24 horas para Bruno. Até que um telefonema feito a uma tia da família deixou claro: um dos sobrinhos de Celso seria morto caso os irmãos do ex-prefeito não deixassem o país. O casal tratou de providenciar a partida dos três filhos.

– Em seguida, caiu a ficha: estávamos pensando nos filhos. Mas e nós? Quando começamos a pensar na saída deles, era mais ou menos inescapável pensar na nossa saída também.

Em março de 2006, o casal chegaria à França, país escolhido pela proximidade cultural – Marilena havia estudado lá por seis meses na época da morte de Celso – e pela tradição em acolher refugiados políticos.

O status de refugiado foi obtido no segundo semestre de 2006, após avaliação do Ofício Francês de Proteção aos Refugiados e Apátridas. A tarefa não costuma ser fácil: apenas 10% dos estrangeiros que solicitam o refúgio são aceitos. Em 2006, os Daniel foram a única família brasileira a obter o status – que lhes permite trabalhar e viver legalmente –, graças às comprovações de que poderiam ser mortos caso voltassem ao Brasil. Os dois levaram uma vida secreta no Exterior até o início deste ano, quando resolveram voltar a se manifestar através de cartas abertas a instituições brasileiras.

A dificuldade do casal hoje é de ordem financeira. Contam com a ajuda de amigos para sobreviver e recorrem a trabalhos eventuais, cada vez mais escassos em tempos de crise econômica europeia. Marilena está recorrendo ao seguro-desemprego. Bruno tenta rir da ironia do destino:

– No Brasil, eu dava aula justamente sobre Estado de bem-estar social. Agora a gente tem um status aqui de família de baixa renda, então recorremos ao Estado de bem-estar social e sofremos as mesmas agruras das pessoas francesas de baixa renda. Eu não desejo o exílio para ninguém. Deixamos amigos, família, nosso país, nosso trabalho. Tudo isso perdemos. Tínhamos uma vida regular. Perdemos.

Uma máquina complexa

O retorno do casal ao Brasil é pouco provável no curto prazo. Os dois já foram aconselhados a se manter distantes do país em 2010. Em ano eleitoral, qualquer antentado contra eles poderia ser útil tanto ao governo quanto à oposição. Também pode ser o ano de uma decisão que colocará a luta de sete anos no lixo. Isso porque o Supremo Tribunal Federal deve em breve julgar matéria polêmica, que questiona se o Ministério Público tem ou não as prerrogativas para fazer investigação criminal. Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, pede a anulação do processo contra ele justamente por este ter sido conduzido pelo MP e não pela Polícia Civil. Recém indicado pelo governo Lula a uma vaga no Supremo, José Antônio Toffoli é publicamente contra esta prerrogativa do MP, e tende ser um dos votos a liquidar com toda a investigação feita até agora.

A distância do país, segundo o casal Daniel, é penosa, mas também ajudou a repensar algumas questões sobre o Brasil – tanto Bruno quanto Marilena aproveitaram o tempo na França para concluir seus estudos de pós-doutorado. Sobre o episódio que resultou na morte do irmão, Bruno não tem dúvida de que tudo faz parte de um processo bem mais complexo e que deverá ser enfrentado pela socidade brasileira: a sustentação econômica dos partidos políticos. O desinteresse em investigar o caso Celso Daniel, segundo Bruno, não é exclusividade do PT, justamente por envlolver uma prática corrente em diversos partidos. A falta de interesse da oposição ao governo Lula em ir a fundo na investigação teria ficado evidente em dois episódios: no inquérito superficial feito pela Polícia Civil, comandada pelo governo do PSDB, e na irrelevante CPI dos Bingos que, para ele, usou o seu depoimento de forma “eleitoreira” e não atacou o problema do financiamento dos partidos.

– Tudo nos leva a crer que o Celso foi assassinado em razão de haver em Santo André e em outas prefeituras esquema de arrecadação de recursos. E daí não sobra pedra sobre pedra para nenhum partido. Nós ficamos sabendo que havia agentes arrecadadores do PT que saíam de helicóptero de São Paulo junto com agentes de outros partidos para ir a outros estados recolher com a mesma fonte de recursos. É uma máquina complexa que não pode funcionar de maneira transparente.

A morte de Celso, segundo Bruno, teria sido apenas um dos momentos em que essa máquina arrecadatória foi ameaçada:

– Isso é antigo. Na metade da década de 90, o Paulo de Tarso Venceslau, um economista histórico do PT que trabalhou na prefeitura de São José dos Campos, denunciou esquema de arrecadação irregular de recursos na prefeitura e foi expulso do partido. No PT, isso começou antes, até chegar no caso do mensalão, que foi o cúmulo do cúmulo.

O episódio em Santo André, então, teria alcançado um desfecho mais violento em função de particularidades da política local?

– Envolve particularidades da região, mas não é só isso – responde Bruno. – Gilberto Carvalho nos disse, uma semana depois da morte do Celso, que levava no Corsinha preto dele até R$ 1,2 milhão para José Dirceu. Ou seja, não era só uma questão local. Tratava-se da possibilidade de assumir o poder no âmbito federal.

As relações do casal com José Dirceu são definidas por Marilena como “mais do que tensas”. Quando perguntados sobre o ex-ministro da Casa Civil, respondem mais com expressões faciais do que com palavras. Para meio entendedor, um balançar de cabeça e um olhar indignado bastam. A postura escolhida por Bruno e Marilena, atualmente, é a de defender que “Sombra”, já indiciado pelo MP, vá a julgamento popular. Acreditam que, com isso, novas testemunhas surgirão e outros envolvidos no caso poderão ser comprometidos. De que existem mais pessoas envolvidas, o casal não tem dúvida. A elas, Marilena manda um recado, antes de pagar a conta do café e desaparecer novamente no subúrbio parisiense:

– Os mandantes do assassinato do Celso podem desejar que a gente não volte. Nosso recado para eles é: nós ainda somos brasileiros. E nós voltaremos algum dia.

Sobre pessimismo, diploma de jornalismo e o blog de Gunter Axt

Dimanche, octobre 18th, 2009

Eu juro que tento, mas não consigo ser um pessimista. Muita gente diz que sou um pessimista. Pois lamento: só diz que sou um  pessimista quem jamais conseguiu me conhecer direito. E não falta gente que não conseguiu. A maioria – essa categoria que, como diz a própria palavra, é só a ‘maioria’, um bando inutil – não consegue.

Pois eu já tentei e tento muito ser um pessimista. Mas o mundo me contraria a cada dia, a cada hora, a cada segundo. Para cada pessoa desagradável que conheço, outras cinco me aparecem exalando bons sentimentos. Para cada situação triste, duas ou três vêm em seguida relevando tudo. Chego a me irritar um pouco com isso. Às vezes só o que quero é ir dormir pensando que o mundo não tem jeito. Mas ele não me deixa.

Essa besteira toda só para dizer que, em uma semana em que eu me desiludi com o jornalismo – ou melhor, me irritei, ou me desanimei, porque já estou velho demais para me ‘desiludir’ com qualquer coisa –, eis que surge na internet o fantástico blog do Gunter Axt. Conheci o Gunter por acaso, há alguns anos: uma entrevista despretensiosa para o suplemento ZH Zona Sul com um relevante morador da região. Eu não conhecia o historiador, o acadêmico e, acima de tudo, o grande papo contemporâneo que era esse figuraça morador da Tristeza. Passamos uma ótima tarde conversando sobre os mais variados assuntos – que, claro, não teriam espaço no caderno de bairro –, e, na época, pensei: que grande papo esse cara!

Acho que a chegada de um cara fantástico como o Gunter a um blog de grande visibilidade só mostra como temos, em abundância, gente boa no Rio Grande do Sul para contribuir com propriedade para o debate cotidiano, mas que, por um motivo ou outro, está escondida da mídia. Ao mesmo tempo vemos surgir diariamente um bando de burocratas criados em redação de jornal que ganham blog por ter sido um fiel escudeiro do editor nas reuniões de pauta ao longo dos anos. E o leitor recebe aquilo na tela do computador pensando, com razão: por que eu deveria ler esse cara que surgiu do nada? A resposta é: você não deveria ler, caro leitor. Esse é só um burocrata amigo do editor, bebedor de cafezinho, e surgido das nossas lamentáves faculdades de jornalismo.

Pois vejo o surgimento do blog do Gunter, cheio de grandes entrevistas e grandes análises, como o símbolo, pelo menos para a imprensa gaúcha, de que a exigênia do diploma de jornalista é uma coisa rídicula. Abaixo o diploma, viva o bom jornalismo, viva o conteúdo e a boa leitura — que está morta no jornalismo ‘formal’ do Rio Grande do Sul.

Grandes papos surgem de grandes caras. E podem virar grandes blogs. Eis o blog de Gunter Axt. Coloque já nos favoritos. Esse é o cara.

Allez y, mon ami

Lundi, octobre 12th, 2009

Achei que não aconteceria nunca, mas 2009 começa amanhã. Finalmente e quase no fim. A partir de agora, prometo atualizações direto do pátio da Université Paris Descartes (se o prometido wifi liberado funcionar), que alguns chamam de Paris 5 e que outros chamam de « uma das quatro partes de la Sorbonne ». Pouco me importa o nome. Apesar de todas as perdas pelo caminho, importa sempre o que vem pela frente.

Dois bons textos

Jeudi, octobre 1st, 2009

Depois de duas boas canções, aí vão sugestões de dois grandes textos jornalísticos cujos links me chegaram nos últimos dias.

O primeiro vale mais pela forma do que pelo conteúdo. Diferenciada, de Roberto Kaz, na edição mais recente da Piauí, descreve a festa de 15 anos da filha da socialite brasileira Simara Sukarno. Chama a atenção não só a qualidade do texto, mas o esforço de reportagem. A grande quantidade de visitas e entrevistas com a socialite e com pessoas ao seu redor possibilitou a Kaz apresentar, a cada parágrafo, mais e mais detalhes e declarações surpreendentes. Quando você pensa que não é possível ir mais longe, surpreender ainda mais, ele vai. Digo que vale mais pela forma do que pelo conteúdo porque este tipo de reportagem, francamente hostil ao entrevistado, costuma dar margem para todo tipo de interpretação pseudo-sociológica-picareta. Neste caso, abre caminho para o discurso fácil acerca da « miséria intelectual da nossa elite » e besteiras do tipo. A discussão é bem mais complexa do que isso (e uma boa ilustração dessa complexidade sem dúvida surge do fato de que a revista que está publicando este texto é uma excelente iniciativa de uma família também típica representante da elite brasileira). Logo, se você conseguir ler o texto sem cair nessa armadilha, ponto para você.

O segundo texto é Gangland — Who controls the streets of Rio de Janeiro?, do tarimbado Jon Lee Anderson, na edição mais recente da The New Yorker. O texto, em oposição ao anterior, é de incrível sobriedade, e traz o tradicional olhar acurado que tem Anderson para questões que, aparentemente, estariam esgotadas. O interessante na reportagem é justamente perceber como um tema já tão desgastado — neste caso, para nós brasileiros — pode voltar a ser impressionante simplesmente por ser abordado em outra língua e por um olhar estrangeiro — o « olhar de fora », o estranhamento tão necessário e frequentemente perdido no jornalismo cotidiano. A situação que Anderson descreve — uma cidade que tem áreas em que o Estado perdeu o poder — é completamente absurda. E, no entanto, com o tempo, nós deixamos de perceber esse absurdo.

Até as fotografias que ilustram Gangland — Who controls the streets of Rio de Janeiro?, que registram cenas que vemos todos os dias em jornais brasileiros, acabam parecendo novidade.

PS.: tente achar a realização dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro uma boa ideia depois de ler a reportagem de Anderson. Eu aposto que o resto do mundo não vai achar.