Segue abaixo matéria publicada na edição de domingo (18/10) dos jornais Zero Hora e Diário Catarinense, seguida pela retranca extra « Uma Máquina Complexa », que acabou ficando de fora dos dois jornais por falta de espaço, mas que eu acho que vale ser lida.

O exílio de dois brasileiros
Como vive o casal que pediu refúgio político à França para fugir dos assassinos do ex-prefeito Celso Daniel
Gabriel Brust, Especial/Paris
“Você vai nos reconhecer. Somos um casal estranho. Eu sou baixinha com cara de japonesa, Bruno é alto com cara de italiano.”
O último dos vários e-mails trocados ao longo de dois meses deixa clara a preocupação de Marilena Nakano, 61 anos, com a segurança. O encontro é marcado em local público. Ao seu lado, em uma saída de estação de metrô na periferia de Paris, surge seu marido, Bruno José Daniel Filho, 56 anos – um dos irmãos de Celso Daniel, ex-prefeito da cidade paulista de Santo André, assassinado em 2002. O casal “estranho” na aparência vive há três anos na França, em endereço não revelado e em circunstâncias ainda mais exóticas: são refugiados políticos reconhecidos pelo governo francês. Deixaram o Brasil para não virar estatística. No caso, os números nove e 10 na lista de pessoas mortas em circunstâncias suspeitas, todas relacionadas de alguma forma ao caso Celso Daniel.
A descrição do e-mail foi fiel. Bruno José, quase um 1m90cm, magro, cabelo batido e queixo proeminente, destoa de Marilena, enquanto caminham de braços dados pelas ruas de uma das pequenas cidades da banlieue, a periferia parisiense. Marilena é quem mais fala durante as duas horas de conversa em um café. Deixa transparecer indignação, tristeza e, às vezes, até bom humor. Bruno fala pouco e tenta, mas não consegue, sorrir. A morte traumática do irmão seria apenas o primeiro episódio a roubar-lhe qualquer possibilidade de voltar a ter uma existência tranquila. Quem define o trauma é Marilena:
– Lidamos com duas mortes. Uma foi a do Celso. A outra foi a morte simbólica de companheiros do PT. De companheiros, não têm nada.
Foi em função da segunda morte, mais do que da primeira, que o casal desembarcou na França no dia 1º de março de 2006. No segundo semestre de 2005, Bruno, então professor de Economia da PUC-SP, percebeu que o único resultado da luta para desvendar o assassinato do irmão foi o isolamento da família. Restavam ele e Marilena, ambos ex-petistas históricos, como dois Davis batendo de frente com interesses aparentemente ocultos, que se materializavam em duas frentes. Primeiro, na Polícia Civil, que, com apenas três meses de investigação, em abril de 2002, concluiu que o assassinato não passou de crime comum – Celso teria sido sequestrado por engano, no lugar de um empresário. Em segundo, na suposta debandada de companheiros históricos do PT, ocorrida por volta de 2003. Marilena conta:
– A nossa última tentativa de obter apoio do PT foi quando tivemos acesso às fotos da necropsia. Elas mostram que Celso foi torturado. Chamamos alguns petistas, um a um, para dizer “você vai ver o que nós vimos, e a gente está pedindo pela última vez: vocês têm de fazer alguma coisa”. Nunca moveram uma palha.
A indiferença inicial de ex-companheiros se tornaria repúdio aberto à atuação do casal a partir de 6 de outubro de 2005. Bruno confirmou, em depoimento à CPI dos Bingos, ter ouvido de Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um relato sobre corrupção na prefeitura de Santo André com arrecadação de propina para o PT. A participação na CPI foi a gota d’água para acabar com qualquer relação entre o partido e a família Daniel.
O embate do casal e de outro irmão da vítima, João Francisco Daniel, hoje respira graças à intervenção do Ministério Público (MP) de São Paulo. Após avaliar que a investigação policial apresentava questões não esclarecidas, o MP solicitou, em 2002, a reabertura dos trabalhos. Desde então, os esqueletos não pararam de sair do armário. Oito pessoas foram denunciadas pelo assassinato. Outras oito relacionadas ao caso morreram em circunstâncias misteriosas.
– Começamos a sofrer ameaças de forma mais intensa depois que o legista veio a público e disse “Celso foi torturado, não foi um crime comum”. Era a fala de um especialista. Antes de concluir o relatório, foi encontrado morto – conta Bruno.
As ameaças, em telefonemas suspeitos, levaram a polícia a providenciar segurança 24 horas para Bruno. Até que um telefonema feito a uma tia da família deixou claro: um dos sobrinhos de Celso seria morto caso os irmãos do ex-prefeito não deixassem o país. O casal tratou de providenciar a partida dos três filhos.
– Em seguida, caiu a ficha: estávamos pensando nos filhos. Mas e nós? Quando começamos a pensar na saída deles, era mais ou menos inescapável pensar na nossa saída também.
Em março de 2006, o casal chegaria à França, país escolhido pela proximidade cultural – Marilena havia estudado lá por seis meses na época da morte de Celso – e pela tradição em acolher refugiados políticos.
O status de refugiado foi obtido no segundo semestre de 2006, após avaliação do Ofício Francês de Proteção aos Refugiados e Apátridas. A tarefa não costuma ser fácil: apenas 10% dos estrangeiros que solicitam o refúgio são aceitos. Em 2006, os Daniel foram a única família brasileira a obter o status – que lhes permite trabalhar e viver legalmente –, graças às comprovações de que poderiam ser mortos caso voltassem ao Brasil. Os dois levaram uma vida secreta no Exterior até o início deste ano, quando resolveram voltar a se manifestar através de cartas abertas a instituições brasileiras.
A dificuldade do casal hoje é de ordem financeira. Contam com a ajuda de amigos para sobreviver e recorrem a trabalhos eventuais, cada vez mais escassos em tempos de crise econômica europeia. Marilena está recorrendo ao seguro-desemprego. Bruno tenta rir da ironia do destino:
– No Brasil, eu dava aula justamente sobre Estado de bem-estar social. Agora a gente tem um status aqui de família de baixa renda, então recorremos ao Estado de bem-estar social e sofremos as mesmas agruras das pessoas francesas de baixa renda. Eu não desejo o exílio para ninguém. Deixamos amigos, família, nosso país, nosso trabalho. Tudo isso perdemos. Tínhamos uma vida regular. Perdemos.
Uma máquina complexa
O retorno do casal ao Brasil é pouco provável no curto prazo. Os dois já foram aconselhados a se manter distantes do país em 2010. Em ano eleitoral, qualquer antentado contra eles poderia ser útil tanto ao governo quanto à oposição. Também pode ser o ano de uma decisão que colocará a luta de sete anos no lixo. Isso porque o Supremo Tribunal Federal deve em breve julgar matéria polêmica, que questiona se o Ministério Público tem ou não as prerrogativas para fazer investigação criminal. Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, pede a anulação do processo contra ele justamente por este ter sido conduzido pelo MP e não pela Polícia Civil. Recém indicado pelo governo Lula a uma vaga no Supremo, José Antônio Toffoli é publicamente contra esta prerrogativa do MP, e tende ser um dos votos a liquidar com toda a investigação feita até agora.
A distância do país, segundo o casal Daniel, é penosa, mas também ajudou a repensar algumas questões sobre o Brasil – tanto Bruno quanto Marilena aproveitaram o tempo na França para concluir seus estudos de pós-doutorado. Sobre o episódio que resultou na morte do irmão, Bruno não tem dúvida de que tudo faz parte de um processo bem mais complexo e que deverá ser enfrentado pela socidade brasileira: a sustentação econômica dos partidos políticos. O desinteresse em investigar o caso Celso Daniel, segundo Bruno, não é exclusividade do PT, justamente por envlolver uma prática corrente em diversos partidos. A falta de interesse da oposição ao governo Lula em ir a fundo na investigação teria ficado evidente em dois episódios: no inquérito superficial feito pela Polícia Civil, comandada pelo governo do PSDB, e na irrelevante CPI dos Bingos que, para ele, usou o seu depoimento de forma “eleitoreira” e não atacou o problema do financiamento dos partidos.
– Tudo nos leva a crer que o Celso foi assassinado em razão de haver em Santo André e em outas prefeituras esquema de arrecadação de recursos. E daí não sobra pedra sobre pedra para nenhum partido. Nós ficamos sabendo que havia agentes arrecadadores do PT que saíam de helicóptero de São Paulo junto com agentes de outros partidos para ir a outros estados recolher com a mesma fonte de recursos. É uma máquina complexa que não pode funcionar de maneira transparente.
A morte de Celso, segundo Bruno, teria sido apenas um dos momentos em que essa máquina arrecadatória foi ameaçada:
– Isso é antigo. Na metade da década de 90, o Paulo de Tarso Venceslau, um economista histórico do PT que trabalhou na prefeitura de São José dos Campos, denunciou esquema de arrecadação irregular de recursos na prefeitura e foi expulso do partido. No PT, isso começou antes, até chegar no caso do mensalão, que foi o cúmulo do cúmulo.
O episódio em Santo André, então, teria alcançado um desfecho mais violento em função de particularidades da política local?
– Envolve particularidades da região, mas não é só isso – responde Bruno. – Gilberto Carvalho nos disse, uma semana depois da morte do Celso, que levava no Corsinha preto dele até R$ 1,2 milhão para José Dirceu. Ou seja, não era só uma questão local. Tratava-se da possibilidade de assumir o poder no âmbito federal.
As relações do casal com José Dirceu são definidas por Marilena como “mais do que tensas”. Quando perguntados sobre o ex-ministro da Casa Civil, respondem mais com expressões faciais do que com palavras. Para meio entendedor, um balançar de cabeça e um olhar indignado bastam. A postura escolhida por Bruno e Marilena, atualmente, é a de defender que “Sombra”, já indiciado pelo MP, vá a julgamento popular. Acreditam que, com isso, novas testemunhas surgirão e outros envolvidos no caso poderão ser comprometidos. De que existem mais pessoas envolvidas, o casal não tem dúvida. A elas, Marilena manda um recado, antes de pagar a conta do café e desaparecer novamente no subúrbio parisiense:
– Os mandantes do assassinato do Celso podem desejar que a gente não volte. Nosso recado para eles é: nós ainda somos brasileiros. E nós voltaremos algum dia.