Emily Loizeau

février 8th, 2010 by Gabriel

Fui acordando aos poucos na manhã de domingo com a voz dessa garota vindo do som da sala. O apartamento estava vazio e achei estranho que alguém tivesse deixado o Ipod conectado e tocando. De toda forma, Emily Loizeau animou meu domingo e me levou a ir atrás de seus discos. Je ne Sais Pas Choisir, a canção abaixo, é do primeiro, L’Autre Bout du Monde, de 2006, mas ela está com trabalho relativamente novo na praça, Pays Sauvage, do ano passado. Vale a pena ver as fotos do disco mais recente, como esta aí de cima. Dá para ver as outras que integram o ensaio no site oficial.

Emily canta bem e é também uma ótima pianista. L’Autre Bout du Monde é um disco delicado e belo do início ao fim, com momentos bastante sofisticados e, ao mesmo tempo, pop, como o hit Je Suis Jalouse. Emily consegue dar uma roupagem atual e alegre à chanson tradicional. E às manhãs de domingo também.

PS.: Se você leu esse post cedo, sim, eu troquei a canção aí do youtube. Coloquei essa que no momento é a minha preferida.

So happy together…

février 5th, 2010 by Gabriel

Melhor canção com melhor sitcom.

Me manca Italia

février 5th, 2010 by Gabriel

Meu último verão na Itália foi inesquecível, em boa parte, graças às memoráveis pastas servidas nessa mesa aí do vídeo, com janelas voltadas para o azul do Mar Adriático. Fico feliz de saber que, sete meses depois e em pleno e rigoroso inverno, sem caipirinha e praia lotada, a animação segue a mesma na mesa de jantar do grande Berlusconi de Pesaro. Vale conferir, além dessa pérola aí de cima, este bom artigo dele sobre a máfia ‘Ndrangheta publicado na Zero Hora. E viva o Carnaval!

Ai, cinema, que preguiça

janvier 26th, 2010 by Gabriel

Como faz há algum tempo, a rede de cinemas UGC realizou, neste mês, o festival Les Incontournables, reprisando os principais filmes do ano em sessões a módicos 3 euros. Como passei este ano correndo sem parar para resolver uma nova vida inteira e, portanto, pouco fui ao cinema, aproveitei o festival para tirar algum atraso. Meia dúzia de sessões depois, o saldo é aquela reflexão incômoda: ou 2009 foi um péssimo ano para o cinema, ou os meus problemas com a sétima arte estão ficando, de fato, cada vez mais incontornáveis.

Os filmes que alimentavam alguma expectativa, como Frost/Nixon, l’heure de vérité, se revelaram apenas ok. Os que naturalmente prometiam ser ruins, como Inglorious Bastards, cumpriram a expectativa de forma exemplar: são bobagens sem tamanho, daquelas que dão vontade de enterrar o balde de pipoca na cabeça por saber que se está perdendo não só 3 euros, mas quase duas horas da sua vida.

500 Jours Ensemble, a comédia romântica da moda, é outra grande perda de tempo. E, cá entre nós, não tem coisa mais cretina que essa onda de « filmes indie » (da qual Juno e Garden State já são clássicos). É o retrato da porcaria em que foi dar essa geração que cresceu choramingando fechada no quarto ouvindo Radiohead e Belle and Sebastian — sim, a minha geração. Infantis, ignorantes, fracos, depressivos e vegetarianos. Foi o que nos tornamos.

Em meio a todo o tédio do filme, no entanto, meu amigo Alessandro Minuscoli, jornalista e sociólogo, conseguiu fazer uma boa análise de alguns aspectos interessantes que, forçando a barra, dá para extrair do filme. Em algumas poucas linhas e tomando não mais do que uns 3 minutos do leitor, Alessandro consegue dizer mais do que a hora e meia de piadas sem graça do filme. Acho que essa constatação é uma boa pista para você, que está aí pensando « como esse cara não gosta do cinema recente? », começar a me entender.

Aí vai um trecho do bom texto « O calvário dos ‘homens femininos’« :

« Summer casou. A mesma que não acreditava no amor e queria relações casuais. Com o homem do anel. Tom não compreende. Nessa seqüência, está evidente o brete no qual se encontram os homens. Não é o homem sentimental, nem o amoroso, afetivo (aquele pelo qual as mulheres bradaram durante tempos), mas sim aquele que dá um presente que representa a segurança, o poder, a força. É a evidência, no mínimo, de mudanças: 1 – as mulheres também podem fazer suas escolhas; 2 – essa liberdade, saudável, não liberta de valores tradicionais (o presente caro significa a entrega a um padrão de homem). A mudança é de configuração, menos que revolucionária. »

Chanti-y

janvier 25th, 2010 by Gabriel

Voilá!

Dando início a uma série de viagens curtas e baratas pelos arredores de Paris, no último domingo fui até a simpática cidade de Chantilly (clique na foto acima para ir ao Flickr ver as outras), ao norte da capital, distante cerca de 30 minutos de trem. Dá para ir de RER D, o trem metropolitano, e você só paga a passagem, que custa 8,50, se estiver muito afim. (Como é comum nas estações de cidades do interior, a gare de Chantilly não tem roleta nem nenhum tipo de controle. É um sambarilove total).

Chantilly é pequena, mas cheia de história — a começar pelo célebre creme que o também célebre cozinheiro François Vatel (retratado no longa-metragem Vatel, de 2000) criou por lá. E não dá para esquecer que a pronúncia, em francês, vai sem o L. Vira Chanti-y — o que aprendi depois de ser corrigido pelos locais. Os dois grandes atrativos da cidade são o Museu do Cavalo (que vale pela bela construção que fica ao lado do hipódromo, mesmo que você não se interesse por cavalos como eu) e, obviamente, o famoso castelo de Chantilly — no Brasil mais conhecido como o « castelo da Cicarelli e do Ronaldo ».

E o château é, de fato, o grande destaque. Não sou de me empolgar muito com castelos e palácios — prefiro fazer o « turismo que senta num café », que aprecia as nunces do cotidiano, não os monumentos, como já contei por aqui. Mas tive que dar o braço a torcer quando vi o Château de Chantilly: ele é belo, como muitos são, mas é belo não pela magnitude, pela ostentação, pela riqueza. Mas por um conjunto de coisas simples que fazem dele uma espécie de castelo em que qualquer um sente que poderia morar. Difícil um castelo parecer intimista, não é? Entre os elementos que compõem essa atmosfera está sem dúvida o bucolismo. O castelo é cercado por um lago cheio de patos — que sofrem nas águas congeladas desta época — e, na maior parte do tempo, o barulho dos patos é tudo o que se ouve por lá. Os turistas, em menor quantidade que no castelo de Versailles, por exemplo, não são ruidosos. No máximo, ouvem-se seus passos lentos arrastados sobre o chão de pedrinhas. Tudo colabora para uma sensação de paz. Ou seja, um bom programa para um domingo em que se quer escapar da cidade e desligar o cérebro.

Outro detalhe inusitado e que torna o castelo simpático é a obsessão de seus antigos e vários proprietários por cachorros. Tem estátuas e pinturas retratando cachorro por todos os lados, dentro e fora do castelo. Aparentemente porque essa é uma região de caça, tarefa para a qual os cães sempre foram bastante uteis ao homem.

O centro da cidade, bem próximo ao castelo (15 minutos de caminhada entre os dois), revela uma típica cidade do norte da França, com construções e jardins que lembram a Inglaterra. Como o dia estava chuvoso e frio, quase não havia pessoas pelas ruas. O que me leva a crer que essa sensação de paz verificada em Chantilly deve ser privilégio do inverno. Mas o inverno, como sempre, mais atrapalha do que ajuda. Ajuda a criar um clima romântico, com a cerração envolvendo o château, mas arruina qualquer tentativa de piquenique, como o que a gente pretendia fazer no gramado.

Ah, dentro do castelo também fica o Museu Condé, com um incrível acervo de obras de arte. Os aposentos do castelo só podem ser vistos nas visitas guiadas (somente em francês), que rolam três vezes ao dia. A entrada para o castelo e para o museu fica em 10 euros para estudante. Também é possível almoçar no restaurante do castelo, que leva o nome do grande Vatel, mas daí a conta é mais salgada.

O nomadismo, a vagabundagem e a errância vão nos libertar

janvier 21st, 2010 by Gabriel

Recebi ontem um cartão postal do casal 2backpacks. Vem direto da Rússia do Nepal e traz um hilário desabafo ao pé do ouvido feito pelo Felipe sobre o viajar enquanto ato provedor de tolerância em relação a outras culturas. Um tratado em poucas frases bem-humoradas, como é típico dele. Pois ao casal 2backpacks e a todos nós que buscamos um sentido na errância como filosofia de vida, segue aí um trecho de um livro que me acertou no fígado, hoje à tarde, enquanto errava por alguns cafés do Boulevard Saint-Michel:

« A imobilização em uma função — quer se trate de uma função profissional, afetiva, ideológica –, longe de ser a marca de uma superioridade, de um progresso social ou individual, pode ser o sintoma de um fechamento, e, portanto, em um certo prazo, ter um efeito mortífero. A regulamentação da « circulação », a boa gestão das disfunções ou dos acidentes que ela não deixa de induzir permanecem, de antiga memória, a preocupação essencial do poder. Com a modernidade, da qual o Big Brother de Orwell é uma boa ilustração, a uniformização e o controle atingem seu ponto culminante. O que se move escapa, por definição, à câmera sofisticada do pan-óptico. Desde então o ideal do poder é a imobilidade absoluta, da qual a morte é, com toda a segurança, o exemplo acabado. »

PS.: Se você não tem acompanhado a aventura do casal 2backpacks pelo mundo, comece URGENTE. Os textos estão cada vez melhores, como este.

Charlotte, Charlotte…

janvier 16th, 2010 by Gabriel

O disco mais recente chama IRM, tem uma bela canção com este belo video ao lado de Beck, e ela também está em cartaz nos cinemas com Persécution, de Patrice Chéreau. Mas nada disso consegue superar o clipe abaixo, da canção 5:55, do disco de mesmo nome, lançado em 2006.

A diferença do silêncio

décembre 25th, 2009 by Gabriel

Minha noite de Natal chuvosa e fria — um tanto melancólica — em Paris foi salva por uma fábula infantil. Nunca imaginei que, depois de tanto tempo, a história da Branca de Neve pudesse ainda emocionar. Provavelmente a branquela e seus sete anões bobos não me diriam nada em sua fórmula original. Mas estou falando da versão do coreógrafo francês Angelin Preljočaj, que inclusive passou pelo Brasil há pouco. O espetáculo de dança Blanche-Neige tem um ano de estrada colecionando elogios. Aproveitei a sua reestreia no incrível Theâtre National de Chaillot, ao pé da Torre Eiffel, para conferir se era isso tudo. E é.

Preljočaj, um francês de origem albanesa, conta com dois apoios de primeira para recontar a fábula infantil: Blanche Neige tem música do grande Gustav Mahler e figurinos de Jean Paul Gaultier. Mas o que encanta é certamente o equilíbrio encontrado pelo coreógrafo ao tentar uma versão moderna de uma história tão tradicional. Preljočaj é ousado no limite — apenas quando pode. É o caso dos anões, um grupo de sete homens que em nada lembram anões e que deslizam com graça por uma parede contando com o suporte de equipamentos de alpinismo.

Quando não precisa, no entanto, a concepção é tradicional, talvez até demais — caso do momento do beijo em que o príncipe « ressuscita » Branca de Neve. Os movimentos são belos, um tanto conservadores, mas exatamente o que pede este momento da fábula.  Preljočaj não propõe rompimento, mas ousa quando pode — o suficiente para escapar da pieguiçe original da história. E emociona, o que mais importa.

O momento que mais me agradou foi justamente um destes de equilíbrio. Entre o tradicional e o inovador, trata-se de uma passagem que provoca reflexão, além do encantamento natural. Estão no palco somente o príncipe e a Branca de Neve — encarnada pela magnífica Nagisa Shirai — em uma coreografia que ainda celebra a felicidade do casal, antes que as desventuras provocadas pela bruxa comecem a se suceder. Pois os dois começam a bailar e a até então perfeita trilha sonora de Gustav Mahler simplesmente não entra junto. Nagisa e Sergio Diaz dançam em silêncio todo o tempo, indiferentes ao estranhamento que parecem despertar no público. Lá pelas tantas, voltam à posição inicial — e creio que isso nem todos os espectadores perceberam, pelo que sondei após o espetáculo — e recomeçam a mesmíssima coreografia, mas agora novamente embalados pela música de Mahler.

A « falha », claramente intencional, convida o espectador mais atento a uma reflexão sobre o valor do silêncio e a simbiose entre melodia e movimento. A essência da forma como estes dois elementos se completam, para mim, ficou clara em uma flagrante sensação despertada pela passagem: a de que a mesma coreografia, sem a música, leva muito mais tempo do que a mesmíssima, quando embalada. Não há muitas outras questões que se coloquem ao longo da 1h50min de apresentação — fato suplantado, todavia, pela beleza do espetáculo. As duas danças do casal, separados do restante do grupo, são provavelmente a coisa mais bela que assisti em um palco. Infelizmente, apenas uma delas está disponível na internet — e num trechinho curto, a partir dos 35 segundos deste vídeo aí de baixo. Confere:

Segue o mistério do voo 447

décembre 18th, 2009 by Gabriel

Em meio à neve que caiu ontem ao longo do dia em toda região de Paris, me desloquei até Le Bourget, cidade a nordeste da capital, para cobrir a divulgação do segundo relatório sobre a investigação da queda do voo 447 da Air France em junho deste ano. Surgiram mais detalhes, mas o mistério sobre a causa do acidente continua. A matéria saiu na edição de hoje do Estadão, dividida em três textos. Dá para ler aqui, aqui e aqui.

Bons tempos corjeanos

décembre 17th, 2009 by Gabriel

O finado blog A Nova Corja, do qual fiz parte durante algum tempo ao lado de bons amigos de Porto Alegre, está concorrendo a « blog da década » numa eleição do Estadão. Não acho que seja tudo isso, embora o blog tenha tido grande repercussão e tenha divertido muita gente — quem leu e, principalmente, quem escreveu.

A notícia legal é que deram uma reformulada lá no site, que continua no ar, e agora dá para lar os textos de todos os colaboradores que passaram pelo blog ao longo dos anos, separadamente. Logo, dá para acessar alguns textos meus que tinham ficado perdidos no ciberespaço e que nem pelo Google dava para encontrar mais. Fiz uma verdadeira viagem aos meus tempos de universitário recém-formado lendo os arquivos. E destaquei algumas crônicas que escrevi entre 2005 e 2007. Todas permeadas por uma certa ingenuidade política, mas talvez por isso mesmo divertidas.

Para ler tudo que escrevi, dá para clicar aqui. Mas fiz uma seleção de uns posts mais pessoais, mais ao estilo « diário », que são os que mais me agradam:

« Pela chinelização do nosso litoral » — meu texto de maior repercussão na Corja. Obviamente, puro deboche do início ao fim.

Argentina — Um relato sobre minha primeira ida a Buenos Aires, durante as eleições presidenciais.

Diários da Universidade 1 — Comento a ida de Diogo Mainardi a PUCRS.

Diários da Universidade 2 — Minhas impressões sobre o retorno ao Campus do Vale, cinco anos depois.

Uma entrevista — Converso com Juremir Machado da Silva naquele tom de tiração de onda que a gente não consegue evitar.

Sobre sindicatos 1 — Uma análise da máfia sindical que tomou o país de assalto.

Sobre sindicatos 2 — Reflexões sobre meu início da vida como profissional e mais sindicato.

Comício do PT — Relato das minhas caminhadas pela cidade, dessa vez num comício.

A absolvição de Calheiros — Da época em que a política realmente me deprimia.

Live blogging — Um dos tradicionais live-bloggings que fazíamos na Corja. Esse foi meu único sozinho, em casa, mas em ótima companhia.

« Não é Possível Votar em Lula » — O texto que retrata provavelmente o marco do meu rompimento com a esquerda. Foi o meu segundo texto que mais repercutiu no blog, às vésperas da reeleição de Lula.

Premonição — Uma conclusão sobre o que aconteceria ao governo Lula após uma conversa com o amigo Walter.

E, claro… — Deboche.

… e mais deboche — Porque, afinal, foi o que mais fizemos nesses anos todos.

Bem-vindo, inverno

décembre 17th, 2009 by Gabriel

Na verdade, ainda é outono, mas o cemitério Père-Lechaise já amanheceu assim coberto de neve na minha janela essa manhã.

neve

« We’re always lucky »

novembre 18th, 2009 by Gabriel
Hadley e Hemingway

Hadley e Hemingway

Passei pela Shakespeare and Company no final de uma tarde dessas para matar tempo entre uma aula e outra. A lendária livraria não estava muito cheia, o que me deixou mais à vontade para mergulhar na prateleira da Lost Generation e dar uma olhada em algumas reedições daquela turma de escritores americanos que frequentou a Shakespeare and Company na década de 20 (embora, na época, a loja ficasse em outro lugar).

Como em Paris todos os clichês se confirmam, acabei saindo de lá com uma edição baratinha de A Moveable Feast, de Hemingway, um dos caras da « geração perdida ». A versão original de Paris é Uma Festa (como foi chamado no Brasil) ressalta o estilo simples de Hemingway e torna alguns momentos do livro ainda mais fortes, ao contar as memórias do tempo em que ele viveu na cidade, entre 1921 e 1926. E justamente o capítulo em que ele fala da livraria Shakespeare and Company traz uma bela amostra disso.

É o início do livro, aborda as primeiras impressões do então jovem escritor sobre Paris e sobre o início da vida de casado com Hadley Richardson. Completamente sem grana, mas intensamente apaixonado, o casal parece viver apenas do entusiasmo de estar na Paris dos anos 20. Viviam de amor — sem o perdão do clichê (estamos falando da cidade do clichê, eu já disse). Cada pequena novidade era celebrada pelos dois, recém chegados à Europa (uma versão bem sucedida do filme Revolutionary Road hehe). E a manhã em que Hemingway descobriu a Shakespeare and Company, um lugar em que ele poderia conseguir livros e pagar depois, foi uma dessas descobertas. Chegou em casa na hora do almoço, entusiasmado para contar a Hadley. E segue-se então o belo diálogo em que os dois planejam o resto do dia — e o resto de suas vidas — na cidade:

When I got there with the books, I told my wife about the wonderful place I had found.

« But Tatie, you must go by this afternoon and pay, » she said.

« Sure I will, » I said. « We’ll both go. And then we’ll walk down by the river and along the quais. »

« Let’s walk down the Rue de Seine and look in all the galleries and in the windows of the shops. »

« Sure. We can walk anywhere and we can stop at some new cafe where we don’t know anyone and nobody knows us and have a drink. »

« We can have two drinks. »

« Then we can eat somewhere. »

« No. Don’t forget we have to pay the library. »

« We’ll come home and eat here and we’ll have a lovely meal and drink beaune from the co-operative you can see right out of the window there with the price of the beaune on the window. And afterwards we’ll read and then go to bed and make love. »

« And we’ll never love anyone else but each other. »

« No. Never. »

« What a lovely afternoon and evening. Now we’d better have lunch. »

« I’m very hungry, » I said. « I worked at the café on a café crème. »

« How did it go, Tatie? »

« I think all right. I hope so. What do we have for lunch? »

« Little radishes, and good foie de veau with mashed potatoes and an endive salad. Apple tart. »

« And we’re going to have all the books in the world to read and when we go on trips we can take them. »

« Would that be honest? »

« Sure. »

« Does she have Henry James too? »

« Sure. »

« My, » she said. « We’re lucky that you found the place. »

« We’re always lucky, » I said and like a fool I did not knock on wood. There was wood everywhere in that apartment to knock on too.

Uma quinta-feira na rive droit

novembre 13th, 2009 by Gabriel

Marshmallow é vida

novembre 7th, 2009 by Gabriel

Meio metro disso me garante uma noite inteira escrevendo. Mágica de açúcar.

Cooptado

novembre 6th, 2009 by Gabriel

Na correria do dia a dia acabo, inevitavelmente, desovando no Facebook e no twitter minhas impressões, links e comentários sobre o cotidiano em geral. Para prejuízo deste blog, que é cada vez menos atualizado. Acontece que boa parte dos leitores daqui são old school, não usam twitter nem Facebook e me cobram atualizações. Como o tempo anda curto mesmo, aí vai uma solução parcial. Selecionei alguns comentários e links que andei compartilhando no twitter e colo aí para você que ainda não se rendeu ao fascinante mundo das arrobas.

* Constrangimento é sentar ao lado de duas colegas muçulmanas-usando-véu-e-tudo e abrir seu notebook cujo papel de pared é @alenegrini pelada.

* Passei a noite rindo disso. « Fiz um curso de leitura dinâmica e li « Guerra e Paz » em 20 minutos. Envolve a Rússia. »

* « Sarney delirava só em pensar na realização de seu fetiche sexual: lambidas no dedão do pé. » TOO MUCH. http://tinyurl.com/yegbzuq

* Orkut = loira da Uniban.

* O garoto-propaganda da campanha contra « homofobia na universidade » aqui na França é a cara do Mika http://bit.ly/3U4q5H

* Acabei de receber o convite do Wave, mas estou olhando pra ele ha meia hora e pensando « eu preciso disso na minha vida? »

* E nessa bela noite de outono eu ganhei mais uma afilhada (de honra, não no papel). Deve ser estranho nascer em 2009. Só espero que a pequena Mônica seja feliz.

* 6 graus. muito vento. pescoço sofrendo essa noite.

* RT @grazibadke New York Magazine publicou fotos minhas do show de ontem :D http://tinyurl.com/yzzk7kx

* Augusto Nunes fala sobre o caso Celso Daniel e comenta minha matéria http://tinyurl.com/yk78w88

* Vi o show do Faith no More há dois meses aqui em Paris e deprimente é o primeiro adjetivo que me vem à cabeça. O segundo, é « datado ».

* RT @waltervaldevino Doença – Governo da França lança grande debate sobre a identidade nacional http://bit.ly/1DtQQo

* Último trem vindo da banlieue dá medo. Mas um domingo por lá vale a pena para rever casas e gramados, essas coisas exóticas na capitaR.

* « Metal Contra as Nuvens » é a « Paranoid Android » brasileira, e lançada seis anos antes. #provocaçãogratuita

* Só dando de relho RT @waltervaldevino Adalton Marques (http://u.nu/5iuq3), no Mais!, critica o adjetivo « criminoso » dado a quem atirou no helicóptero do Rio

* « Senhores, estou aqui inserindo o meu pau ». Imperdível o blog de Oscar Maroni Filho. http://www.blogdomaroni.com

* hipsters = auge da civilização. http://bit.ly/zkJXr

* Crianças malas começam a tocar a campainha e a pedir doces. Atendo de cueca e ofereço vinho. Saem correndo na hora. #mauhumor

* Pra quem perdeu: dá para baixar o set do @DJChernobyl aqui http://tinyurl.com/yl7sgj8

* Comentário atrasado, mas… o vestido da tal ‘Loira da Unibambi » nem era tão curto. Rolou um LOSER-VIRGEM-MODE-TURBO aí entre essa gurizada.

* @robertalemes Eu e @carolbensimon estamos pra testar um mito que diz que Paul Lapin em francês é bom. Duvidando muito, claro

* Quase chorei, amigo Mauricio. Mas elas não valem nem fanzine. RT @azevedomauricio @gabrielbrust qndo tu vais reunir tuas matérias num livro?

* Isso que eu chamo de « imersão na cultura do país »: dois dias sem banho e contando. (frio+aquecedor quebrado)

* Requento massa com molho de caixinha às 3h da manhã e começo a entender quais são os tais « pequenos rituais pós-modernos » da aula de hoje.

* Aproveito para lembrar a quem estiver em POA que entre os dias 3 e 5 haverá um fantástico seminário Inernacional de Comunicação na Famecos.

* O seminário terá forte participação do grupo de estudo do qual faço parte aqui na Sorbonne (o Ceaq) http://www.ceaq-sorbonne.org

* Gosto da ideia de Cristóvão Tezza ser o mais aclamado escritor brasileiro da atualidade.

* Além de O Filho Eterno ser um bom livro, me parece que Tezza escapa de algumas fórmulas q já encheram o saco na literatura brasileira atual.

* O aguardado Início do seminário do prof. Maffesoli na Sorbonne foi em grande estilo. Ninguém entendeu nada, mas ele parecia feliz.

* Je sais q je ne devrais pas être bon pour vous cette façon. Mais j ne peux pas éviter: les billets pour Paul sur vente à 9h a getmein.com

* Véio morreu trêizveiz com esse clip novo da Imbruglia http://bit.ly/V0iW8

* Pena q não deu tempo de @tatitavares perguntar ao Antonio Cândido, na boa entrevista de hj, sobre essa assinatura dele no manifesto do mst.

* Peço desculpas públicas a todos os fãs do The Kooks. « Konk » não é um disco tão ruim como eu disse que era em um texto do ano passado.

* Bebendo TsingTao, « a melhor cerveja chinesa desde 1903″. Impossível não pensar trabalho escravo + muita porquice na fabricação.

* RT @helgakern Já leram na Revista do Beco o texto que o @gabrielbrust fez sobre a FENX em Paris? Baixe a revista aqui http://tiny.cc/WYiUN

* Fail geral na abertura do Windows Cafe. A internet ficou fora do ar na ultima hora inteira e nao tem muita gente. Mas o expresso eh bem bom.

* Sobre o windows 7, nao estou achando muito diferente do Vista.

* Dica p quem vier: pegue cafe, suba pro 2andar e peça para Katherine explicar o Windows7 enquanto pensa numa maneira de pedi-la em casamento.

* A Katherine nao me deu mole, mas a cinegrafista da AFP sim. Acabei de posar para aquelas imagens fake que aparecem em notas dos telejornais.

* E, como voces podem perceber, a coisa menos interessante na abertura do Windows Cafe eh o windows 7.

* Que a Irmandade dos Apreciadores de Francesas Tarjas-Pretas (IAFTP) me perdoe, mas só essas sairam com foco http://tinyurl.com/yhuko3p #fail

* Um texto que começa assim só pode ser bom hahaha: RT @reinaldoazevedo PETRALHAS ESTÃO ANSIOSOS PELO MEU DESTINO. http://bit.ly/45w91v

Desabafaram por mim

novembre 3rd, 2009 by Gabriel

Allan Sieber e Carol Bensimon desabafaram recentemente, em seus blogs, sobre duas coisas que também andam me incomodando muito. Ele foi um pouco mais sucinto, ela escreveu uma bela crônica. Agradeço a ambos por terem abordado os dois temas e me poupado trabalho.

Primeiro, o cartunista, ao falar sobre o episódio da Loira da Uniban, aponta como uma das causas uma característica da nossa geração da qual eu também já estou de saco cheio:

« (…) O atual movimento de prolongar a adolescência ad eternum. Ninguém mais quer ser adulto, todo mundo quer ser adolescente a vida toda, jogar videogame, usar boné, se vestir como garotos propaganda da Adidas, Nike ou Puma, chamar as meninas de puta. »

Depois, minha vizinha, desabafando sobre uma questão aparentemente mais amena, mas que ganha contornos dramáticos para gaúchos que moram aqui na França:

« Você frita um bife em casa e dá errado. Você pede um entrecôte num restaurante (sempre há) e é verdade que ele tem mais gosto de carne do que aquela que você compra no supermercado, mas ainda assim, o entrecôte é aquela coisa meio esponjosa, meio agora-não-dá-mais-para-mastigar-vou-ter-que-engolir. »

Indignação seletiva

novembre 1st, 2009 by Gabriel

A Veja dessa semana provoca uma boa reflexão sobre a indignação no mundo atual. Aparentemente, terroristas estão imunes e ela. Segue texto:

Todo atentado terrorista é hediondo, mas o que aconteceu na quarta-feira em Peshawar, no Paquistão, teve uma característica particularmente perversa. O carro-bomba, com motorista suicida, serpenteou pela área de um mercado ao ar livre bem na hora em que as mães pegam os filhos na escola e vão comprar comida para fazer o jantar. A explosão matou mais de 100 pessoas, na maioria mulheres e crianças. Com o mesmo método e a mesma filiação ideológica – o radicalismo islâmico, recrudescido diante da percepção de que os Estados Unidos vacilam –, outros dois carros lotados de explosivos provocaram carnificina no centro de Bagdá: mais de 160 pessoas estraçalhadas. Tão assombroso quanto as bombas foi o silêncio mundial ante o horror do massacre dos inocentes. Os jovens anarquistas de roupas moderninhas que fazem quebra-quebra a cada reunião do G-20 ou do FMI? Nada. As senhoras de cor-de-rosa que protestam contra todas as ações militares dos Estados Unidos? Caladíssimas. E os imãs, os chefes das mesquitas ou os fiéis comuns dos países muçulmanos, indignados com a matança de seus irmãos de fé? Nem pensar. Os motivos obedecem a razões deturpadas. Em relação ao Iraque, é porque as vítimas são xiitas, que ascenderam ao poder com a derrubada de Saddam Hussein, e qualquer manifestação de apoio a eles é vista como endosso à invasão americana. O mesmo raciocínio
enviesado se aplica, em outras condições, ao Paquistão, onde talibãs e companhia barbarizam. O governo do Iraque pediu à ONU que abra um inquérito sobre os atentados. Será interessante ver como o pacifismo seletivo reage. Já apareceu o primeiro abaixo-assinado?

« Todo atentado terrorista é hediondo, mas o que aconteceu na quarta-feira em Peshawar, no Paquistão, teve uma característica particularmente perversa. O carro-bomba, com motorista suicida, serpenteou pela área de um mercado ao ar livre bem na hora em que as mães pegam os filhos na escola e vão comprar comida para fazer o jantar. A explosão matou mais de 100 pessoas, na maioria mulheres e crianças.  Tão assombroso quanto as bombas foi o silêncio mundial ante o horror do massacre dos inocentes. Os jovens anarquistas de roupas moderninhas que fazem quebra-quebra a cada reunião do G-20 ou do FMI? Nada. As senhoras de cor-de-rosa que protestam contra todas as ações militares dos Estados Unidos? Caladíssimas. E os imãs, os chefes das mesquitas ou os fiéis comuns dos países muçulmanos, indignados com a matança de seus irmãos de fé? Nem pensar. Os motivos obedecem a razões deturpadas. Em relação ao Iraque, é porque as vítimas são xiitas, que ascenderam ao poder com a derrubada de Saddam Hussein, e qualquer manifestação de apoio a eles é vista como endosso à invasão americana. O mesmo raciocínio enviesado se aplica, em outras condições, ao Paquistão, onde talibãs e companhia barbarizam. O governo do Iraque pediu à ONU que abra um inquérito sobre os atentados. Será interessante ver como o pacifismo seletivo reage. Já apareceu o primeiro abaixo-assinado? »

Você já viu esse filme

novembre 1st, 2009 by Gabriel

Vida de rockstar é sempre bem previsível, ao contrário do que possa parecer. O New York Times da última quarta traz uma entrevista com Julian Casablancas, do The Strokes, que conta aquela novelinha de sempre: está numa nova fase, mais família, porque finalmente largou a cachaça que destruia sua vida. A leitura vale mais pelos detalhes do bom texto de Melena Ryzik do que pela história em si. Segue trecho:

« After dinner Mr. Casablancas walked out into the street. It was nearly 1 a.m.; it was drizzling. He misses Los Angeles weather, he said. His wife was at home in their East Village apartment; his friends were — well, what friends? »

A vida cotidiana não é tributária da simples razão

octobre 28th, 2009 by Gabriel

Vão aí quatro trechos de No Ritmo da Vida — Variações sobre o Imaginário Pós-moderno, de Michel Maffesoli, que dão o que pensar sobre a curva que o homem atual está fazendo em direção ao primitivo. O livro não deixa de ser um resumão de coisas que o próprio autor já disse em outros livros, mas até por isso vale ser lido. E não se engane: trata-se de um olhar bastante otimista sobre esta tal curva rumo ao arcaico. Ah, os subtítulos são meus, não do prófe:





1. A volta dos rituais: jornalismo e música techno

“Essa significância que não se projeta e vive no dia-a-dia dos mitos arcaicos não deixa de lembrar intuições como a de Gabriel Tarde sobre a ‘repetição universal’, e naturalmente a iluminação nietzscheana sobre o ‘eterno retorno’. Estas encarnam, concretamente, nas figuras da publicidade ou no andamento lancinante da música techno. Outros exemplos esclarecedores são as conversas cotidianas e a importância da repetitividade no noticiário jornalístico. Em cada um desses casos, estamos longe da ‘via recta’ da demonstração, e em plena ruminação primitiva de alguns enigmas próprios à natureza humana. Como no caso das diversas ‘lições’ de uma mesma história identificadas pelos historiadores das religiões em todos os mitos, existe redundância em todos os fenômenos sociais consitutivos da vida cotidiana. Donde – e isto tem sérias consequências para nossa compreensão desses mesmos fenômenos – a impossibilidade de analisá-los buscando causas ou de apreciá-los em função de uma finalidade puramente racional. A vida cotidiana não é tributária da simples razão.”

2. A volta da contemplação e da vida sem objetivos: adultos jogam video-game

“Seja nas idas a boates, nos ajuntamentos religiosos, nas diversas peregrinações exóticas ou na multiplicação das práticas esportivas, o que está em jogo é a exaltação da vida no que tem de sensível e afetuoso. O ascetismo, a contenção, a limitação, próprios da educação judaico-cristã, não tem mais curso. Prevalece apenas a consumação do instante. O imaginário que assim se esboça é essencialmente estético, o imaginário das vibrações comuns. Já não se trata de ser um adulto sério e tensionado para a perfeição de um estado estável, mas, pelo contrário, uma eterna criança, sempre em devir a ávida pelo que se apresenta. Esse ‘juventudismo’ pode ser criticável de um ponto de vista moderno. Mas nem por isso deixa de contaminar os modos de vida, precários, efêmeros, as maneiras de se vestir, os cuidados com o corpo e as diversas posturas intelectuais. O que se traduz na recusa exacerbada de qualquer projeto (político ou existencial).”

3. A volta do tribalismo: piercings e tatuagens

“Chama a atenção, com efeito, para além das ideias convencionadas sobre o suposto desânimo geral, uma inegável serenidade no ‘corporalismo’ contemporâneo, jogos do corpo, jogos sobre o corpo. Tatuagens, piercing, ‘body-building’, barroquização da vestimenta e cosmetização exaltam um corpo cuja finitude é conhecida, mas isto feito numa perspectiva ‘mística’. São rituais de união, sacramentos que tornam visível uma força invisível. A repetição dos signos, cor dos cabelos, escarificações, uniformes vestimentais, leitmotive de linguagem, exprimindo uma saúde selvagem, natural, que, além ou aquém das ideologias, traduz um hedonismo tribal, no qual a solidariedade, a ajuda mútua e a generosidade têm lugar.”

4. A volta dos deuses mitológicos: nossos heróis são rockstars

“(…) É isso que pode permitir compreender que os heróis pós-modernos não são mais políticos ou ideológicos, mas à imagem dos deuses pré-modernos, das “figuras” que vivem as paixões, os amores, as baixezas e as exaltações de qualquer um. Donde a necessidade de uma hermenêutica centrada na mitologia cotidiana e capaz de reconhecer, no jogo das redundâncias rituais, visuais, acústicas e sensoriais, uma função simbólica que, como indica Gilbert Durand, “corrige e completa inesgotavelmente a inadequação” a esse sentido profundo ao qual aspiramos. Existe intensidade na superficialidade dos fenômenos.”

À Sombra de um Crime

octobre 20th, 2009 by Gabriel

Segue abaixo matéria publicada na edição de domingo (18/10) dos jornais Zero Hora e Diário Catarinense, seguida pela retranca extra « Uma Máquina Complexa », que acabou ficando de fora dos dois jornais por falta de espaço, mas que eu acho que vale ser lida.

O exílio de dois brasileiros

Como vive o casal que pediu refúgio político à França para fugir dos assassinos do ex-prefeito Celso Daniel

Gabriel Brust, Especial/Paris

“Você vai nos reconhecer. Somos um casal estranho. Eu sou baixinha com cara de japonesa, Bruno é alto com cara de italiano.”

O último dos vários e-mails trocados ao longo de dois meses deixa clara a preocupação de Marilena Nakano, 61 anos, com a segurança. O encontro é marcado em local público. Ao seu lado, em uma saída de estação de metrô na periferia de Paris, surge seu marido, Bruno José Daniel Filho, 56 anos – um dos irmãos de Celso Daniel, ex-prefeito da cidade paulista de Santo André, assassinado em 2002. O casal “estranho” na aparência vive há três anos na França, em endereço não revelado e em circunstâncias ainda mais exóticas: são refugiados políticos reconhecidos pelo governo francês. Deixaram o Brasil para não virar estatística. No caso, os números nove e 10 na lista de pessoas mortas em circunstâncias suspeitas, todas relacionadas de alguma forma ao caso Celso Daniel.

A descrição do e-mail foi fiel. Bruno José, quase um 1m90cm, magro, cabelo batido e queixo proeminente, destoa de Marilena, enquanto caminham de braços dados pelas ruas de uma das pequenas cidades da banlieue, a periferia parisiense. Marilena é quem mais fala durante as duas horas de conversa em um café. Deixa transparecer indignação, tristeza e, às vezes, até bom humor. Bruno fala pouco e tenta, mas não consegue, sorrir. A morte traumática do irmão seria apenas o primeiro episódio a roubar-lhe qualquer possibilidade de voltar a ter uma existência tranquila. Quem define o trauma é Marilena:

– Lidamos com duas mortes. Uma foi a do Celso. A outra foi a morte simbólica de companheiros do PT. De companheiros, não têm nada.

Foi em função da segunda morte, mais do que da primeira, que o casal desembarcou na França no dia 1º de março de 2006. No segundo semestre de 2005, Bruno, então professor de Economia da PUC-SP, percebeu que o único resultado da luta para desvendar o assassinato do irmão foi o isolamento da família. Restavam ele e Marilena, ambos ex-petistas históricos, como dois Davis batendo de frente com interesses aparentemente ocultos, que se materializavam em duas frentes. Primeiro, na Polícia Civil, que, com apenas três meses de investigação, em abril de 2002, concluiu que o assassinato não passou de crime comum – Celso teria sido sequestrado por engano, no lugar de um empresário. Em segundo, na suposta debandada de companheiros históricos do PT, ocorrida por volta de 2003. Marilena conta:

– A nossa última tentativa de obter apoio do PT foi quando tivemos acesso às fotos da necropsia. Elas mostram que Celso foi torturado. Chamamos alguns petistas, um a um, para dizer “você vai ver o que nós vimos, e a gente está pedindo pela última vez: vocês têm de fazer alguma coisa”. Nunca moveram uma palha.

A indiferença inicial de ex-companheiros se tornaria repúdio aberto à atuação do casal a partir de 6 de outubro de 2005. Bruno confirmou, em depoimento à CPI dos Bingos, ter ouvido de Gilberto Carvalho, chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um relato sobre corrupção na prefeitura de Santo André com arrecadação de propina para o PT. A participação na CPI foi a gota d’água para acabar com qualquer relação entre o partido e a família Daniel.

O embate do casal e de outro irmão da vítima, João Francisco Daniel, hoje respira graças à intervenção do Ministério Público (MP) de São Paulo. Após avaliar que a investigação policial apresentava questões não esclarecidas, o MP solicitou, em 2002, a reabertura dos trabalhos. Desde então, os esqueletos não pararam de sair do armário. Oito pessoas foram denunciadas pelo assassinato. Outras oito relacionadas ao caso morreram em circunstâncias misteriosas.

– Começamos a sofrer ameaças de forma mais intensa depois que o legista veio a público e disse “Celso foi torturado, não foi um crime comum”. Era a fala de um especialista. Antes de concluir o relatório, foi encontrado morto – conta Bruno.

As ameaças, em telefonemas suspeitos, levaram a polícia a providenciar segurança 24 horas para Bruno. Até que um telefonema feito a uma tia da família deixou claro: um dos sobrinhos de Celso seria morto caso os irmãos do ex-prefeito não deixassem o país. O casal tratou de providenciar a partida dos três filhos.

– Em seguida, caiu a ficha: estávamos pensando nos filhos. Mas e nós? Quando começamos a pensar na saída deles, era mais ou menos inescapável pensar na nossa saída também.

Em março de 2006, o casal chegaria à França, país escolhido pela proximidade cultural – Marilena havia estudado lá por seis meses na época da morte de Celso – e pela tradição em acolher refugiados políticos.

O status de refugiado foi obtido no segundo semestre de 2006, após avaliação do Ofício Francês de Proteção aos Refugiados e Apátridas. A tarefa não costuma ser fácil: apenas 10% dos estrangeiros que solicitam o refúgio são aceitos. Em 2006, os Daniel foram a única família brasileira a obter o status – que lhes permite trabalhar e viver legalmente –, graças às comprovações de que poderiam ser mortos caso voltassem ao Brasil. Os dois levaram uma vida secreta no Exterior até o início deste ano, quando resolveram voltar a se manifestar através de cartas abertas a instituições brasileiras.

A dificuldade do casal hoje é de ordem financeira. Contam com a ajuda de amigos para sobreviver e recorrem a trabalhos eventuais, cada vez mais escassos em tempos de crise econômica europeia. Marilena está recorrendo ao seguro-desemprego. Bruno tenta rir da ironia do destino:

– No Brasil, eu dava aula justamente sobre Estado de bem-estar social. Agora a gente tem um status aqui de família de baixa renda, então recorremos ao Estado de bem-estar social e sofremos as mesmas agruras das pessoas francesas de baixa renda. Eu não desejo o exílio para ninguém. Deixamos amigos, família, nosso país, nosso trabalho. Tudo isso perdemos. Tínhamos uma vida regular. Perdemos.

Uma máquina complexa

O retorno do casal ao Brasil é pouco provável no curto prazo. Os dois já foram aconselhados a se manter distantes do país em 2010. Em ano eleitoral, qualquer antentado contra eles poderia ser útil tanto ao governo quanto à oposição. Também pode ser o ano de uma decisão que colocará a luta de sete anos no lixo. Isso porque o Supremo Tribunal Federal deve em breve julgar matéria polêmica, que questiona se o Ministério Público tem ou não as prerrogativas para fazer investigação criminal. Sérgio Gomes da Silva, o “Sombra”, pede a anulação do processo contra ele justamente por este ter sido conduzido pelo MP e não pela Polícia Civil. Recém indicado pelo governo Lula a uma vaga no Supremo, José Antônio Toffoli é publicamente contra esta prerrogativa do MP, e tende ser um dos votos a liquidar com toda a investigação feita até agora.

A distância do país, segundo o casal Daniel, é penosa, mas também ajudou a repensar algumas questões sobre o Brasil – tanto Bruno quanto Marilena aproveitaram o tempo na França para concluir seus estudos de pós-doutorado. Sobre o episódio que resultou na morte do irmão, Bruno não tem dúvida de que tudo faz parte de um processo bem mais complexo e que deverá ser enfrentado pela socidade brasileira: a sustentação econômica dos partidos políticos. O desinteresse em investigar o caso Celso Daniel, segundo Bruno, não é exclusividade do PT, justamente por envlolver uma prática corrente em diversos partidos. A falta de interesse da oposição ao governo Lula em ir a fundo na investigação teria ficado evidente em dois episódios: no inquérito superficial feito pela Polícia Civil, comandada pelo governo do PSDB, e na irrelevante CPI dos Bingos que, para ele, usou o seu depoimento de forma “eleitoreira” e não atacou o problema do financiamento dos partidos.

– Tudo nos leva a crer que o Celso foi assassinado em razão de haver em Santo André e em outas prefeituras esquema de arrecadação de recursos. E daí não sobra pedra sobre pedra para nenhum partido. Nós ficamos sabendo que havia agentes arrecadadores do PT que saíam de helicóptero de São Paulo junto com agentes de outros partidos para ir a outros estados recolher com a mesma fonte de recursos. É uma máquina complexa que não pode funcionar de maneira transparente.

A morte de Celso, segundo Bruno, teria sido apenas um dos momentos em que essa máquina arrecadatória foi ameaçada:

– Isso é antigo. Na metade da década de 90, o Paulo de Tarso Venceslau, um economista histórico do PT que trabalhou na prefeitura de São José dos Campos, denunciou esquema de arrecadação irregular de recursos na prefeitura e foi expulso do partido. No PT, isso começou antes, até chegar no caso do mensalão, que foi o cúmulo do cúmulo.

O episódio em Santo André, então, teria alcançado um desfecho mais violento em função de particularidades da política local?

– Envolve particularidades da região, mas não é só isso – responde Bruno. – Gilberto Carvalho nos disse, uma semana depois da morte do Celso, que levava no Corsinha preto dele até R$ 1,2 milhão para José Dirceu. Ou seja, não era só uma questão local. Tratava-se da possibilidade de assumir o poder no âmbito federal.

As relações do casal com José Dirceu são definidas por Marilena como “mais do que tensas”. Quando perguntados sobre o ex-ministro da Casa Civil, respondem mais com expressões faciais do que com palavras. Para meio entendedor, um balançar de cabeça e um olhar indignado bastam. A postura escolhida por Bruno e Marilena, atualmente, é a de defender que “Sombra”, já indiciado pelo MP, vá a julgamento popular. Acreditam que, com isso, novas testemunhas surgirão e outros envolvidos no caso poderão ser comprometidos. De que existem mais pessoas envolvidas, o casal não tem dúvida. A elas, Marilena manda um recado, antes de pagar a conta do café e desaparecer novamente no subúrbio parisiense:

– Os mandantes do assassinato do Celso podem desejar que a gente não volte. Nosso recado para eles é: nós ainda somos brasileiros. E nós voltaremos algum dia.