

Sou ocidental. Represento a herança da civilização greco-romana e fui educado na fé judeo-cristã. Como ocidental ordinario, na adolescência, as idéias radicais de esquerda serviram para me afastar de um olhar « encantado » do mundo. Mais tarde, quando uma visão mais sensata da nossa sociedade me conquistou, os devaneios utopicos de outrora se tornaram tão descompassados que os releguei ao sotão das ideologias empoeiradas.
A juventude posmoderna segue a rota em direção ao reencantamento do mundo, porém esse trajeto leva, não a um retorno das praticas religiosas, mas das praticas rituais. Não abraçamos uma religião, mas varias. Colecionamos ritos, colecionamos experiências numa vida sem fins. Porém, continuamos ocidentais e é dificil para um ocidental – como eu – consacrar a existência aos humores divinos.
No Tibete é diferente. No Nepal e na India também. Budistas e hinduistas incorporam um fatalismo a todo custo, onde a renuncia da vida de todos os dias é tão gritante que para o meu espirito ocidental – ex-comuno-materialista – soa ingênua.
Ao contrario dos hippies-wannabies, não consigo me encantar com as cores e os cânticos dos ritos hindus, aqui em Pushkar, por exemplo, e esquecer a miséria decorrente dessas mesmas praticas. Nessa viagem, não consigo quebrar a invariavel relação entre pobreza e religião.
Não se pode renunciar ao lado « encantado » da vida, ele é importante para compreender e – reconhecer – o humano. Mas não se pode, muito menos, renunciar à vida (ponto).
Uma vaca sagrada, na India, defeca onde quiser. As crianças seminuas, brincam em contato com esses excrementos. Em nome da religião, permite-se praticas completamente contrarias às normas sanitarias. Em nome de um destino espiritual, permite-se que as crianças adoeçam mesmo sem compreender o que é um brahman e o que significam todos os ritos e cânticos.
Talvez seja um raciocinio simplista e até mesmo preconceituoso. Mas fazer a relação é inevitavel. A India ocupa a 143a posição, entre 195 paises, no indice de mortalidade infantil da ONU (78 crianças, a cada mil, morrem antes de completar cinco anos). A religião não é a causa principal, mas o fatalismo e a resignação que ela induz. Sem falar de costumes barbaros como o sati ou da condição da mulher.
E os jovens ocidentais, extasiados pelas maravilhas de uma vida menos asseptizada e materialista, embarcam em mais uma busca de iluminação, ignorando as regras medievais que regem essas mesmas sociedades ditas espirtualmente evoluidas.

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Relativismo cultural my ass.
Finalmente alguem manda a merda « as cores, a alegria, os tempeiros, o blablabla » do Oriente e fala algo que preste sobre a vida de verdade nesses lugares. Bravo, Felipe.