Old Tingri e Everest em Como quebrar o encanto
Lundi, 11th janvier 2010 at 18 h 07 min

Se em algum momento nosso planejamento financeiro esteve a risco foi quando decidimos embarcar no trem para o Tibete. Para visitar a Região Autônoma do Tibete, uma provincia chinesa, o viajante precisa de uma « permissão » acordada pelo Tibet Travel Bureau. Essa licença so pode ser adquirida através de uma agência de viagens dentro de um programa definido de turismo. Em outras palavras, para conseguir a autorização é necessario comprar um pacote de uma agência. O permit é valido somente nas cidades de Lhassa e Shigatse. Se a intenção é desbravar o interior do pais, uma outra autorização é necessaria – junto com um tour organizado. Organizar tudo isso de fora da China se revela quase impossivel e bastante oneroso. Organizar a viagem dentro da China é bastante simples e . . . bastante oneroso também!

Para mantermos o Tibete no nosso roteiro, tivemos de sacrificar o trekking no Nepal que viria na sequência da viagem. Acredito que fizemos uma boa escolha, o Tibete é, como esperavamos, inigualavel. Mas o preço pago pela excursão é alto demais. O custo, somado a uma progressiva falta de profissionalismo do guia e do motorista ao longo do trajeto, quebram a magia das paisagens, do povo e das tradições. Nos estavamos certos de que boa parte do dinheiro investido ficou nas mãos da agência intermediaria. Na realidade, 60% do valor pago. Dos 40% restantes, a metade fica na agência de Lhassa que contrata o guia e aluga uma caminhonete 4X4 com motorista. Guia e motorista dividem os 20% restantes, mas são obrigados a pagar o custo real da viagem: é o guia que paga os hotéis e o combustivel na medida que avançamos. E ele, logicamente, tenta economizar ao maximo para que lhe sobre mais. Para os clientes – nos -, a expectativa criada e o produto entregue são tão distantes quanto a fronteira nepalesa.

Lhassa, Gyantse e Shigatse foram passagens inesqueciveis. A capital, com seus monastérios, templos e palacios; Gyantse com sua estupa unica e; Shigatse com seus peregrinos, nos proporcionaram fotos maravilhosas e dias inesqueciveis. Uma boa inserção numa religião que eu pensava menos hierarquizada e menos focada naquilo que vem apos a morte. A divisão entre Dalai Lama, Panchen Lama e Karmapa. Bom, tudo isso nos quatro primeiros dias de viagem. Se a viagem tivesse terminado ali. . .

Primeira mudança: o guia nos diz que, conforme o roteiro, devemos pernoiter na cidade de New Tingri, num hotel correto como os outros até ali, mas que a cidade não tem nada de interessante e que se estivessemos dispostos a pagar 10 euros a mais, poderiamos avançar 30 quilômetros até Old Tingri, uma cidade tipica tibetana e nos hospedar numa pousada tradicional. Feito! Caimos. A cidade tipica é uma rua tomada por quase uma centena de cães de rua e a pousada tradicional é uma construção rudimentar onde os cubiculos – quartos – não tem luz nem aquecimento. A quatro mil metros de altitude, as noites são frias. Sem chuveiro, normal. E o banheiro nos fez sentir saudades dos bem cuidados buracos dos nômades mongois. Pior, o preço do hotel: entre três e cinco euros. Como é o guia – amigo do proprietario – que paga, dificilmente nosso quarto custou mais de um euro.

Depois, todo o contorno necessario para chegar ao Everest Base Camp. Todos sabemos que o monte Everest fica no Nepal e não no Tibete, mas aparentemente existe um acampamento de base do lado tibetano à 5200 metros de altitude – quase a mesma altura do famoso base camp nepalês. Depois de um percurso off-road de quase quatro horas chegamos numa base militar chinesa fora de funcionamento. E o monte Everest, atras das nuvens a algumas dezenas de quilômetros dali. Valeu pelas paisagens, mesmo!

No monte Everest, dormiriamos num monastério a cinco mil metros! O lugar, ainda mais precario que o anterior dispunha apenas de arroz para as proximas três refeições. Alegando um mal-estar por causa da altitude, pedimos para o nosso motorista nos levar até a proxima cidade, distante 200 quilômetros: Zhangmu, na fronteira nepalesa. Seis horas de viagem e uma decida vertiginosa, à noite, em meio a uma tempestade de neve, para encontrar uma autêntica cidade chinesa. La, aguardamos 36 horas até a chegada do guia com os outros dois turistas para que nos levem até o check-point de saida do Tibete/China.

O problema aqui não é a falta de conforto ou a precariedade dos lugares. Aqueles que ja viajaram na Bolivia ou na Mongolia sabem que as instalações são rudimentares e que, as vezes, é dificil passar quatro ou cinco dias sem banho e sem um toilette com agua corrente. O problema é o preço! Tanto na Bolivia, quanto no Peru – Caminho Inca -, ou na Mongolia, o preço cobrado condiz com aquilo que sera oferecido. No caso do Tibete, não. Paga-se por uma estada de luxo e o serviço é de um camping picareta. Agora, entendo melhor porque a maioria dos viajantes na China vão somente até as portas do Tibete e voltam, sem entrar.

Ultima frase: Apesar de tudo, fariamos de novo sem hesitar.

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