Os 25 centavos do Abraão
Uma moeda de 25 centavos americanos na pequena estrada que leva a Vila do Abraão, em Ilha grande (RJ). Costa magnífica com a moldura do Pico do Papagaio no esplendor dos seus mil metros e a floresta altântica, magníficos. A costa, ao longe, como um ponto distante e, se pudesse escolher, nunca alcançável. Entre as ruelas da pequena vila pesqueira, hoje, turística, ser brasileiro é integrar a minoria. O inglês é língua oficial no verão quer nosso, quer do Hemisfério Norte. Alemães, argentinos, australianos, americanos, canadenses, holandeses. É um caldeirão cultural aquela vila. O inglês e o castelhano são idiomas oficiais ao lado do português. Estão todos lá e nossa identidade coletiva são as sandálias havaianas coloridas. A moeda que encontrei é uma entre centenas que devem estar espalhadas por lá. Daqui há algumas centenas de anos, algum doido vai encontrar meia dúzia e achar que é tesouro deixado pelos conquistadores ianques. Talvez, até lá, o euro seja mais frequente e as moedas não sejam de coloração monocromática como é o dólar. Guardei aquele quarter com carinho. Acho que me dá sorte desde aquele dia. Sou humano, ora, tenho fraquezas e estou no direito de me apegar a pequenas coisas. Gosto de pensar que os 25 cents irão me trazer riqueza. Não importa se espiritual ou financeira. Que tragam alguma coisa. Só um último comentário tosco: há culturas que se atiram em viagens com muito mais desprendimento do que a brasileira. A Ilha Grande – e a moeda americana – são exemplos de que as comunidades internacionais podem coexistir. Há diferenças, sim, e são profundas. Vale uma nota no passar dos dias, nessa relativa existência. Agora, lembrem que o paraíso não fica tão longe assim como o Cristianismo nos vende. Se Deus existe, e voto por isso, o Bem não fica no além. Ou, se fica, ele tem pequenos oásis neste mundo. É nosso olhar que precisa ser adequado e ajustado pra compreender o mundo como o espaço das diferenças e, consequentemente, da beleza. É o próprio Homem quem transforma a existência no seu calvário a caminho do inferno.
